Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

GRITO DE DESESPERO



Há em nós humanos um sentimento intrínseco de justiça, que é fundamental para o nosso equilíbrio como pessoas e cidadãos. Sem ele  , seria muito difícil haver uma relação estável e valeria certamente a lei do mais forte. Quando  este valor falta, existe um tornado de revolta, um saber consciente de que as coisas não estão bem. Foi isto que acompanhou alguma das gerações passadas, que sofreram na pele duma forma incompreensível , o terror de outros seres humanos , qual retrocesso medieval da nossa evolução.

 Numa das crónicas passadas já tive oportunidade de falar de alguns  genocídios conhecidos dos últimos anos. ( Vide  Mês de Junho/11  , com o título  “ O Aprendiz de Carniceiro ). Mas aquilo que julgamos completamente fora de hipótese nos dias de hoje, foi realidade há muito poucos anos no Camboja, na Bósnia, no Holocausto Ucraniano ou no Ruanda.

Quando a balança da justiça fica encravada para um lado, a contemplação desta realidade nem sempre origina uma reacção de resposta imediata, pois o mais fraco deixa de poder contar com aquilo que mais o defende – os seus direitos. Passa a vigorar o poder do opressor, a escravização imperialista, muitas vezes abençoada com subidas ao poder de pessoas e ideias que hoje julgamos completamente fora da realidade. Mas o que é certo, é que elas aí estiveram  e os seus ideais continuam presentes.

É curioso, no crime de há uns meses na Noruega, o seu autor era esclarecidamente contra o multiculturalismo e principalmente contra o Islamismo. Numa mente doentia ou numa personalidade predisposta, este modo de pensar pode acabar naquilo que todos nós assistimos e que escandalizou o mundo. Na opinião deste senhor Breivik, os governos e políticos deveriam ser castigados e responsabilizados por aquilo que ele chama o controle escancarado de  outras culturas nas nossas Sociedades,  onde esses malefícios estão à vista de toda a gente. Daí o pegar em armas para satisfazer tamanha obsessão de pensamento, muitas vezes desvirtuado por doutrinas e pensamentos enviesados cativantes de personalidades frágeis e compulsivas. O resultado esteve à vista, não na ordem dos milhares, pois ele não tinha sozinho condições para o fazer ( ao contrário de outros ), mas na ordem da centena.

Reparem que foi uma coisa semelhante que originou a Solução Final pelos Nazis ( era preciso limpar a Europa de indesejáveis de toda a espécie, para se construir um mundo realmente melhor, com uma raça dominante que desse garantias desta certeza ). Também foi uma coisa semelhante que fez com que Ratzo Mladic fizesse a limpeza étnica contra os Muçulmanos na Bósnia. Também não é apenas para chatear os Muçulmanos Franceses que o Governo deste País exigiu o cumprimento de determinadas normas, tendo proibido determinados costumes e comportamentos desta comunidade religiosa, que não deixam de ser tão Franceses como os outros. Havia que dizer abertamente a quem quisesse entender que em França os costumes e os valores são para ficar.

É assim neste contexto que temos de avaliar e pensar, os crimes cometidos contra famílias inteiras, extermínio de populações e até de grupos étnicos concretos como Judeus e Ciganos. Foi com este espírito que visitei muito recentemente o Museu do Campo de Extermínio de Auchwitz-Birkenau, na Polónia junto a Cracóvia.

Não vou estar aqui a contar o que se vê ou deixa de ver nessa visita, pois dum modo geral toda a gente sabe no que consta, com mais ou menos pormenor. O que mais me impressionou e interessou, foi o facto de no meio de tanta gente que diariamente visita o Campo, existir um silencio solidário, um reconhecimento comum da barbárie, um medo interior da natureza humana. Não vemos sinalética a reclamar silencio. Não é preciso. Ele coabita com o nosso pensamento e homenagem comuns. As pessoas estão lá para prestarem uma homenagem e não para alguns pormenores macabros. Cada um se coloca um pouco no lugar das vitimas, e se pergunta porquê tu e não eu?

É facil governar os Homens pelo terror, mas é difícil fazê-lo por muito tempo e impunemente. Na saída do Campo nº 1, mesmo ao lado esquerdo, atrás de onde costumava tocar a banda do Campo para alegrar os residentes e recém-chegados, fazendo imaginar um local tranquilo, existe um lugar que tem uma trave  do tipo baloiço, onde foi enforcado Rudolf Hoss, o primeiro comandante deste Campo de martírio. Confesso que o saber isto, não me aliviou coisa nenhuma daquilo que estava sentindo, antes me fez pensar o que se ganhou com tamanha violência. Se se costuma dizer que na Guerra não há vencedores nem vencidos, aquele lugar comprova-o duma maneira completamente perceptível. Aquele lugar é testemunha disso.

Saint- Exupery dizia que é muito misterioso o país das lágrimas. Apeteceu-me chorar. Porque sabes cantar, amigo, sabes chorar. Este Museu é um local de reflexão. É uma paragem no tempo. É sentir que o Inferno já passou por ali, ao nosso lado. É ouvir o clamor dos inocentes.É um grito de socorro sem ter ninguém que nos possa valer. É a lei do mais forte. É um espelho conspurcado da Natureza Humana. É a vergonha da nossa Civilização.

Já no final da visita em Birkenau (Campo 2 de Aushwitz ), existe um memorial que diz: Que este lugar seja para a humanidade um Grito de Desespero, foto que mostro em baixo. Está em várias línguas, daqueles países que tiveram mais vítimas. Que os nossos filhos aprendam com os erros dos seus avós.









FUGA DA MORTE


Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha
teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita

PAUL CELAN

NUNCA MAIS


 
Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, rela e densa.
Para sempre está perdido
O que mais de tudo procuraste
A plenitude de cada presença
 
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
 
 
Sofia de Melo Breyner
 
 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

NOITE


Eu vivo
nos  bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.

PRATO DA VIDA


  Ingredientes:  Carinho, felicidade, amor, fraternidade, lembrança, jasmim, paixão, esperança





No prato da vida, vivida
Na esperança da fraternidade eterna,
Pus a levedar a seiva materna
Nesta época ressurgida
Com uma pitada de sal,
Pois estamos no Natal!

Polvilho com paixão esclarecida
Duma criança em busca de esperança.
Aqueço o forno em nome duma lembrança
Da felicidade da minha infância reaparecida,
Pois hoje é o dia da abastança
Que à tristeza e dor trouxe temperança!

Já sinto o cheiro do festim
Pois está na hora da partilha do amor.
Recheio de carinho, e para afinar seu odor
Enfeito com duas flores de jasmim.
À mesa do sonho irá ser servido
Grande parte deste meu prato preferido.


Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Nash, J


É possível provar matematicamente que o interesse de todos nós por vezes não é compatível com o interesse individual de cada um. Esta prova, matemática, foi suficiente para dar um Prémio Nobel em 1994 a um matemático ( J. Nash ), ainda por cima numa fase da sua vida que sofria de esquizofrenia, como se pôde ver ainda há pouco tempo num filme que andou a rodar em várias salas e até na TV, ‘ Uma Mente Brilhante ‘. Este princípio, o do Equilibrio,  é ainda muito aplicado hoje em dia  na gestão moderna em que os défices estão à frente do nariz, e o calote não se compadece com benesses sociais para ganho de eleições ou interesses de lobbies. 
 O Equilibrio de Nash  representa uma situação em que, em um jogo envolvendo dois ou mais jogadores, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente. Para melhor compreender esta definição, suponha que há um jogo  com n participantes. No decorrer deste jogo , cada um dos n participantes seleciona sua estratégia ótima, ou seja, aquela que lhe traz o maior benefício. Então, se cada jogador chegar à conclusão que ele não tem como melhorar sua estratégia dadas as estratégias escolhidas pelos seus n-1 adversários (estratégias dos adversários não podem ser alteradas), então as estratégias escolhidas pelos participantes deste jogo definem um "equilíbrio de Nash".

Só que rapidamente a memória é curta e o que hoje parece lógico e aceitável, ontem seria praticamente crime. Tudo isto no nosso País, teve e tem a meu ver a sua expressão máxima nos gastos do País em Saúde desde há alguns anos a esta parte.

Claro que a Saúde é uma coisa muito vasta, e uma das grandes áreas económicas do mundo. Em Portugal representa 16% da riqueza do País, um dos maiores negócios a nível nacional ( 12% do PIB ). Por outro lado o controlo deste negócio é cheio de ambiguidades, pois há vários interesses em causa ( das farmácias, da industria, dos prestadores, das seguradoras, dos próprios dirigentes de cada altura, dos políticos, e dos paus mandados dos políticos em áreas que não estão de todo preparados). Tudo seria mais fácil se tudo dependesse dum só organismo, o que hoje é praticamente impossível acontecer nesta nossa economia de mercado ou seja se o Estado fosse o controlador de todos estes sectores de interesse, pois teria armas de gestão que lhes daria muito maiores garantias de controlo da despesa do que aquilo que tem hoje. Mas esses tempos já lá vão e hoje seriam completamente impossíveis.

Isto leva ao que se chama, o Sistema de Financiamento da Saúde, que terá que ser coerente, pragmático e com regras fora do contexto puramente político (embora claro está tudo é político), que é o que está a acontecer na maior parte dos Países da EU. Não tenho duvidas que em Portugal, grande parte do lobbies estão dentro da Administração Pública, pois esta foi sempre usada como meio de combate por todas as forças políticas para ganhar eleições, ao mesmo tempo abençoados por filosofias de carácter social convenientes em função dos tempos. O que interessaria era que não houvesse reclamações, manifestações, notícias ou agitação que ponha em causa a rotina diária da hierarquia do poder (Secretário de Estado, ARS, Sub-Regiões , ACES e Representantes locais como Municípios, Freguesias e fundamentalmente Representantes locais dos partidos do poder ). Essa corja nunca entendeu, que alguém teria de pagar as ideias avançadas de gestão ruinosa de acordo com estes interesses, não só individuais como de grupos. O interesse de uns poucos, pagos por todos, camuflados de humanismo e preocupação com os mais desfavorecidos.

Apenas como exemplo, e numa zona que conheço bem, vejamos o que foi feito nos últimos anos, numa análise apenas dos factos. Como grande parte dos leitores deve saber, eu nunca fui director de nada, candidato a nada, inscrito em qualquer partido ou com interesses privados , pois trabalhei sempre em regime de exclusividade. Sou apenas um trabalhador da saúde como sempre fui.

Até 1995. O C S Vouzela esteve instalado, tal como os outros nos Concelhos vizinhos, em antigos Hospitais da Misericórdia ( O C.S  S.P.Sul ainda tem este privilégio, embora já se veja o novo,  a andar para a frente ). É público que o aluguer pago pelo edifício do C S Vouzela, extremamente degradado,  rondava os 800 contos por mês, uma autêntica fortuna para a época. Ou por isso ou porque veio dinheiro fresco da CEE, criou-se  com todo o merecimento, o actual C. Saúde na altura orçamentado em 400-500 mil contos. Este edifício com dois pisos funcionais, é um dos C. de Saúde  mais amplos, mais bem construídos e com melhores condições que eu conheço a nível Nacional e equipado na altura com o que de melhor estava preconizado.

Tinha 4 módulos, e estava estudado para 24.000 pessoas ( 4 x 6000 por cada módulo ). Tudo bem. Só que a população da Vila de Vouzela é de perto de 1500  pessoas e do Concelho 10562. Porém, ainda existiam como existem  4  Extensões de Saúde onde os utentes frequentam consultas ( equivalente em população a metade do Concelho ), pelo que aquela grandiosa obra estava a ser usada, e ainda está,  por 4 médicos e aproximadamente  5500  utentes. Falta o Delegado de Saúde com a sua sobrecarregada agenda. Não era politicamente correcto fechar Extensões, pois mesmo com esta obra realizada, era sempre muito incomodo retirar o médico das Extensões, onde a maior parte das vezes não havia condições de trabalho ou qualquer apoio de enfermagem.
O novo C. de Saúde era equipado com  RX , máquina de Análises Clínicas, gabinete de audiometria  convenientemente forrado, gabinete de fisioterapia com algum equipamento base e gabinete de dentista. Tudo como manda a sapatilha….

O RX esteve anos sem funcionar, e só nos últimos anos tivemos o privilégio de ser lá colocada uma técnica, que dava apoio ao SAP da altura e que ainda hoje lá se encontra para fazer uma média de 4-5 RX/ dia. Temos uma técnica praticamente a tempo inteiro para tão árduo serviço.
A Máquina de Analises clínicas funcionou 1 mês, pois logo se viu que era incomportável nos gastos dos acessórios para se fazerem as respectivas análises. Pouco tempo depois foram lá buscá-lo e eu duvido muito que o tenham colocado utilizável em qualquer parte. Jaz em qualquer canto cheio de ferrugem e teias de aranha, possivelmente.
O gabinete de audiometria esteve acompanhado durante anos com uma boa poltrona, uma mesa modesta onde assentava a máquina dos audiogramas, até que por abandono total ou por ordem superior, foi recolhida. Duvido que se tenham feito mais de uma dúzia de audiogramas! A sala ainda lá está com funções diversas. O Gabinete de Fisioterapia também esteve anos completamente parado, e só há alguns anos funciona bastante limitado, com um técnico que lá foi colococado,fazendo actualmente o seu melhor. O mesmo aconteceu com o dentista. Anos sem lá aparecer ninguém, mas devido a um esperado contrato tivemos finalmente dentista durante uns tempos. Mas, há 3-4 anos que o gabinete está solitário, sem o ambiente doutros tempos, mas com a respectiva cadeira…sem dentista. Agora usa-se o cheque dentista nos consultórios particulares, possivelmente fica mais barato. O gabinete deverá ter o mesmo destino do aparelho de audiometria. A cadeira que se ponha a pau…

Todos os utentes tinham médico de família, e apesar disso havia SAP 24 H, onde a substituição das férias, fins de semana e feriados eram pagos com horas extraordinárias aos médicos, com direito a folga conforme a lei, e com dispensa no dia seguinte à enfermagem e pessoal auxiliar. Numa zona que contemplava os C Saúde de Oliveira de Frades, Vouzela, S Pedro do Sul e Castro Daire, que equivalia a uma população de aproximadamente  55.000  pessoas, haviam 3 SAP abertos 24 horas e 1 aberto 12 Horas. Isto para a dita população que cumulativamente todos tinham médicos de família, em alguns casos muito longe do limite legal de utentes. ( Não deve haver no mundo tamanha taxa de atendimento ). Vejam que Viseu tem 95.000  residentes  e nunca teve nenhum C. Saúde aberto 24 horas. Diziam que era por o Hospital estar aberto. Mas ao mesmo tempo queixavam-se que as pessoas só deveriam ir ao Hospital se fosse muito urgente! Ou seja, se me doesse um dente às 2 da manhã teria e tenho que ir ao Hospital!!

Numa campanha eleitoral, um Secretário de Estado, em visita à Extensão de Cambra ( que dista 5 Km da Sede que eu atrás referi, e que tem uma população residente de 1300 pessoas ), e não contente com o que viu,  resolveu abrir os cordões à bolsa e construir um  outro edifício de raiz para renovação da respectiva Extensão de Saúde, que hoje está praticamente às moscas, só sendo utilizada a tempo parcial por um médico, com enfermagem uma vez por semana. Com a abertura para breve da Unidade de Saúde Familiar em Vouzela, ou com o possível encerramento pelo Governo de Extensões com número abaixo dos 1500-1700 utentes, lá vai ficar mais uma obra para ser reconvertida.

Já no tempo do Ministro Correia de Campos, tomaram uma Douta decisão. Passam o SAP ( Hoje SUB ) para S Pedro do Sul, onde gastaram quase meio milhão de euros em transformar uma casa velha em remediável, com atendimento dito de Urgência com 2 médicos, 2 enfermeiros e restante pessoal por 24 horas/dia.( isto com instalações novas em Vouzela  onde não era preciso praticamente gastar dinheiro ). Colocaram ambulância do INEM em Vouzela toda a noite com 2 técnicos. Como não bastasse, instalaram o ACES no piso térreo do C.S. Vouzela. ( deram essa honra à terra como foi dito ..) Como se tratava dum organismo de vital importância para a Saúde (?), diria mesmo indispensável, mereciam instalações condizentes e então mais obras para acolher tão digno organismo que com o respectivo equipamento, deixaram o piso como novo. Vai daí e como o calor aperta, vários aparelhos de ar condicionado foram instalados , pois a malta trabalha melhor pela fresquinha . Contudo, passado quase um ano repararam que no piso de cima, onde os utentes eram atendidos, não existia qualquer unidade de ar condicionado, o que poderia ser incomodo caso algum jornalista mais ousado fosse tirar uma foto aquela paisagem . Uma fila de várias unidades em baixo e nada lá para cima.! Num esforço “ meritório “ , foram então instaladas novas unidades no piso de cima. Por minha parte o meu muito obrigado.

Fala-se que este  ACES vai ser encerrado brevemente !!

Estas realidades, embora locais, são uma amostra de como os recursos que tivemos foram gastos. O mais curioso é que alguns destes responsáveis estão a converter-se rapidamente nos defensores do nossos impostos e da poupança. O que nos vale é que agora os bolsos estão mesmo vazios e já não há crédito, e ainda bem.
Jonh Nash não deveria ter sido matemático, mas possivelmente astronauta. Aproveitava e levaria muito desta gente para o espaço, pois era lá que deveriam estar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A REVOLUÇÃO SEM CRAVOS


  São 2 horas da manhã. Caçadores 9 inicia o movimento, subindo em boa ordem  a Rua de S Bento tendo-se dirigido à Cadeia da Relação, onde estancou. A guarda da cadeia era fornecida por Alferes Malheiro, tendo sido convidado pelas forças em presença a aderir ao movimento. Este acedeu ao convite, mas só após recomendar ao sargento da guarda que vigiasse bem o edifício, não fossem os presos aproveitar o ensejo para se invadirem. Ninguém se lembrou que naquele momento lá dentro se encontrava João Chagas e que era natural que o libertassem para colocar o seu talento e esforço e energia ao serviço da revolução.  Quem eram os amotinados? Sargentos e praças, Sargentos Galho e Bandarra  , posteriormente acompanhados pelo 1º Abílio, que contra a vontade do Comandante e graduados , que não os conseguiram demover, vieram para a rua. Seguiu este regimento posteriormente para o campo de Santo Ovídio, ( hoje Praça de República ), onde se iria reunir com Infantaria 10.

Tenente Coelho era o chefe dos revoltosos de Infantaria 10. Um dos revoltosos foi avisar o Capitão Leitão, que morava próximo, tendo posto de imediato o capacete na cabeça e de pronto se dirigiu ao local. Estava bem longe de supor que uma vez chegado ao Campo de S. Ovídio, teria que assumir o comando superior das forças revoltosas.

No Campo de S. Ovídio os dois regimentos formaram deste modo: O de Caçadores 9 em quadrado, próximo da porta principal do Quartel de Infantaria 18; O de Infantaria 10 em dois Círculos na outra extremidade do Campo.

Uma vez concluída a formatura, soldados e populaça começaram a dar Vivas à Republica e ao Exercito, com apupos à Monarquia.

Momentos depois  o destacamento de Cavalaria 6, alojado na dependência do Quartel de Infantaria 18, nesse mesmo Campo, veio em galope formar na linha paralela à fachada. Ao mesmo tempo convergiam para o Campo as forças da Guarda Fiscal. As saudações e os vivas redobraram de intensidade.

Ponto da Situação: São 4 da manhã de 31 de Janeiro de 1891. Todas estas forças estavam revolucionadas e só aguardavam a saída de Infantaria 18, para iniciarem a marcha contra o inimigo monárquico.  Estes representados dentro do Porto pela Guarda Municipal e pela Polícia Civil.

Com as forças revoltosas especadas no Campo de S. Ovídio e cercadas por todos os lados pela Guarda Municipal, Infantaria 18 nem andava nem desandava, pois sargentos e oficiais não chegavam a acordo sobre a atitude a tomar. Neste regimento, 18 sargentos que tentaram levar duas companhias através da porta de armas para o Campo, mas as portas voltaria a fechar-se. Os revoltosos no lado exterior, juntamente com a populaça que cada vez mais crescia em número, faziam pressão para que o 18 aderisse ao movimento. Pegaram em machados, e vai daí abriram um rombo na porta do Quartel do lado da Lapa, preparando-se para entrar. Para evitar carnificina, o Capitão Leitão procurou convencer o Comandante do 18 , Coronel Lencastre de Menezes, a juntar-se aos revoltosos, tendo tido a promessa que seguiriam em breve.
Acreditava-se firmemente que este Regimento iria apoiar a revolta: Se assim fosse a vitória estaria praticamente no papo, pois teria um alto significado não só para a população civil mas para outros militares e Quartel-General o facto de estas tropas serem comandadas por um Coronel e muitos Oficiais. As adesões seriam inumeráveis e ninguém teria dúvidas em aceitar os factos consumados.

Enquanto isto decorria, as forças da Guarda Municipal, sob o comando do major Graça, retiraram prudentemente daquele local, deixando livres as ruas para evitar o confronto, e foram estacionar para a Praça da Batalha, junto ao Quartel-general (onde é hoje o Governo Civil) e do telégrafo. Os Revoltosos saíram finalmente do Campo de S. Ovídio e dirigiram-se pela rua do Almada até à Praça de D. Pedro, (actual Praça da Liberdade), onde deveriam ocupar os Paços do Concelho e efectuar a cerimónia da deposição do Monarca reinante e da Proclamação da República. “Pelas ruas o povo acenava com lenços, davam palmas e segundo o cronista, nunca tão espontânea e tão calorosa manifestação se produziu na bela cidade nortenha. Na rua a multidão engrossava a cada momento e era difícil romper perante a massa compacta que se aglomerava.”


Pouco passava das 6 da manhã, quando de repente se abriram as janelas dos Paços do Concelho e alguns indivíduos da classe civil apareceram a dar vivas à Republica, ao Exercito e aos Regimentos Sublevados. O Dr Alves da Veiga faz um discurso e foi anunciado os nomes das pessoas que deveriam constituir o governo provisório, entre as quais Rodrigues de Freitas, Joaquim Soares (Desembargador), Joaquim Albuquerque (Lente da Academia Politécnica ), Santos Reis ( médico ) , e Licínio Leite ( Banqueiro ).


O Capitão Leitão, vendo que em contrário do que lhe assegurara o coronel Lencastre da Infantaria 18, reconheceu que tinham sido traídos, uma vez que para além deste havia ainda a esperança que a Guarda Municipal também iria aderir. Também por via civil, veio a tomar conhecimento que a Guarda Municipal estava a ocupar posição na Praça da Batalha em plano defensivo, para proteger o Quartel-General e o telégrafo.

Os revoltosos (Capitão Leitão, Tenente Coelho e Alferes Malheiro) após confidenciarem, resolverem que o Capitão Leitão iria à frente das forças pela Rua de S. António ( hoje 31 de Janeiro ), e ao chegar à Praça da Batalha procuraria parlamentar com o Sub-Chefe do Estado Maior, Fernando de Magalhães, que os revoltosos consideravam inteligente e pessoa de carácter. Ele iria decidir em ultima instancia se a superioridade estava na verdade do lado dos sublevados e se a Guarda Municipal poderia submeter-se-lhes sem hesitações. Havia esta esperança uma vez que com a certeza quase absoluta que o Regimento de Infantaria 18 havia aderido, não era razoável nem patriótico que a Guarda Municipal não o fizesse, uma vez que estava praticamente sozinha nesta contenda. Assim os revoltosos, não tinham a menor intenção de derramar sangue de irmãos de armas ainda por cima convencidos que todo o exercito se sentia impelido a resgatar o País da humilhante situação em que se encontrava, devido aos governos da monarquia, que não se inspiravam nos sagrados interesses nacionais.

O Ataque:  “As forças do comando do capitão Leitão saíram da Praça de D. Pedro e principiaram a subida pela Rua de S António, em marcha de quatro,  levando à frente a banda de infantaria 10; Seguia-se-lhe a Guarda-fiscal e iam depois Caçadores 9. A Guarda Municipal formava no alto da rua, no adro escalonado de S Ildefonso, guardando a entrada na Batalha pelas ruas de S. Catarina, S. António, e de S Ildefonso. Uma multidão enorme acompanhava as forças da revolta em sua marcha, e esta artéria do Porto tinha uma aspecto quase d festa. Do povo saiam brados entusiásticos vitoriando os sublevados. A marcha das forças tinha o carácter insofismável dum passeio triunfal, em que eles pareciam recolher os aplausos pela vitória alcançada rapidamente e sem embate sensível. Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de S. António o povo que acompanhava os sublevados hesitou e recuou. O capitão Leitão olhou para cima e viu o guarda municipal em atitude defensiva, com as armas apontadas para a coluna. Não ligou grande importância ao facto e, como a banda de Infantaria 10 continuasse a tocar, não ouviu que de S. Ildefonso as cornetas tinham feito o sinal de alto-meia volta. A marcha prosseguia e de repente, saíram da forma dois soldados da guarda-fiscal, que se dispunham a disparar as armas contra a municipal, tendo de imediato sido repreendidos pelo Capitão Leitão que lhes ordenou: - Não atirem!..A guarda não nos faz mal!
Posteriormente colocando-se à frente da coluna, levantou os braços, como pretendendo afirmar à municipal que a atitude dos sublevados era pacífica. A guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lançou o maior pânico nas forças da revolta e nos populares que pejavam a rua de S. António. A marcha deteve-se, e num segundo produziu-se um precipitado movimento de recuo, e a coluna dissolveu-se, desordenada e a breve trecho a Rua de S. António ficou juncada de corpos inanimados e com despojos das vítimas. O capitão Leitão foi ferido na cabeça mas conseguiu escapar e conseguiu chegar até à Praça Nova. A Guarda Municipal abrigada por detrás das pedras continuava a disparar. Os soldados revoltosos, enquanto tiveram munições, iam respondendo com valentia ao ataque da força fiel ao regime monárquico. Estes valentes eram principalmente da guarda-fiscal e caçadores 9, pois infantaria 10 que estava no fundo da rua de S. António, ao começar o tiroteio fora forçada a recuar até à Câmara. Não mais se conseguiram organizar pois da Serra do Pilar, e outras baterias postadas nos ângulos de S. Bento e dos Loyos começaram a atacar os sublevados que ficaram encurralados nos Paços do Concelho. Um tiro de peça, arrombando a porta do edifício, mostrou aqueles valentes que a situação se definia irremediavelmente como a derrota da Republica. O capitão Leitão abandonou a casa da Câmara e pouco depois os outros combatentes imitaram-no, terminando a luta por volta das 9 da manhã.”

Oficialmente foram 12 as vitimas do movimento republicano, mas segundo a imprensa e estudo dos despojos abandonados e entrada de cadáveres nos Hospitais (Terço e Misericordia ) e os recolhidos das ruas, pensa-se que o numero efectivo rondaria os 50. O túmulo das vítimas “ Paz Aos Vencidos “ encontra-se no Cemitério do Repouso.

Terminados os julgamentos algum tempo depois em Conselho de Guerra, foram condenados s prisão maior celular ( e, na alternativa, na de degredo), João Chagas, Verdial, Capitão Leitão, os sargentos Abílio, Galho, Silva Nunes e outros. O tenente Coelho foi condenado a 5 anos de degredo. Os Regimentos de Caçadores 9 e Infantaria 10 também sofreram castigo exemplar: O Governo dissolveu-os.

Reparem os leitores, principalmente os mais velhos, as semelhanças com o que aconteceu 83 anos depois com a Revolução do 25 de Abril. Com a diferença que nesta ultima não houve qualquer resposta da Guarda Republicana que respeitou o povo em simbiose com o militares, não havendo derramamento de sangue. A 31 de Janeiro de 1891, no Porto, não houve cravos mas lágrimas, e os ideais revolucionários tiveram ainda que esperar alguns anos.


Baseado na Revolução de 31 Janeiro – Jorge Abreu , Ed Casa Alfredo David - 1912

VIVENDO


Contemplando  e por vezes sonhando
Ia a Vida passeando
Através dos domínios terrenos.
Recordando,
Pensando.

Donde vens tão apressada
Oh  Morte ?
Que da tua sorte
Eu não perduro nem alimento,
Afugento.

- Trágico  destino o teu
Oh  Vida !
Que por mais que te afastes
Mais perto de mim te encontras
P¢ra contas!

- Estou então prisioneira
Por ti encarcerada,
Procurando a felicidade
Mesmo o destino sabendo,
Morrendo!

Busca vã , mas aterradora
Nas entranhas do que é belo.
Para que te possa enfrentar
Nesse duelo, vencendo
Vivendo…

A CIDADE DO SONHO


Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Prometida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe... 

ILUSÕES


Dos restos de amor, faço poesias.
Das lembranças, construo uma saudade
Dos dias que se foram, a mocidade
Que, aos poucos, de mim, se distancia…

Das minhas ilusões, faço castelos
Povoados por fantasmas do passado.
E os quadros, na parede emoldurados,
Tem, como estampas, os rostos mais belos.

A solidão é a rainha de tudo!
E o desespero é o seu escravo mudo,
Que se esconde sempre em meu coração…

E assim eu vou mantendo este reinado:
- enquanto resta um sonho , não sonhado,
Que eu deposito na imaginação…

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

EMPREGO , GLOBALIZAÇÃO E NEO SINDICALISMO

A essência da vida
É andar para a frente,
Sem possibilidade de fazer ou intentar marcha a trás.
Na realidade,
A vida é uma rua de sentido único.

Agatha Christie


Globalização é um conjunto de transformações de ordem política, económica e social que estão a ocorrer no mundo nas últimas décadas. Está centralizada naquilo que os liberais chamam “ Aldeia Global “, onde os Países abandonam barreiras tarifárias e proteccionistas do seu mercado, abrindo-se ao comércio e capital internacionais. Todas estas alterações não são isoladas ou restritas mas consequentes, e por isso são acompanhadas por mudança nas tecnologias e na velocidade da informação, que estão ao alcance geral ou mais propriamente global, através da televisão, internet, telefone, computadores etc, fazendo haver uma homogeneização cultural entre os Países.
Claro que as consequências disto mesmo são as mudanças no modo de produção de bens e serviços com a instalação de fábricas e corporações em qualquer lugar do mundo, fazendo que os produtos não tenham apenas uma nacionalidade mas sejam essencialmente plurinacionais. Não será preciso dar exemplos pois eles são tantos que não caberiam neste artigo, mas não resisto a falar de toda a industria automóvel, Coca-Cola, Mcdonald´s , CNN, Zara, Axa , Exxon ou Apple.
Com a globalização, a temática principal das empresas passou a ser a competitividade. A rápida evolução nos modos de produção e os novos locais de produção obrigou as empresas a cortaram custos com o objectivo de terem bons preços no mercado, mas fundamentalmente não perderem a dita competitividade face à concorrência global. Como tal, representando as despesas com o emprego um dos factores mais caros na produção, serão principalmente os trabalhadores as principais vitimas deste processo. Assim vários postos de trabalho estão a ser eliminados, gerando aquilo que os economistas chamam de “ desemprego estrutural”, gerado pela automação em substituição à mão de obra. A tecnologia provoca desemprego e assim é usada como arma face à concorrência entre empresas de bens e serviços. Embora novos postos de trabalho estejam a ser criados na área de serviços, com base na formação e ultra-especialização de trabalhadores, o que é um facto é que este novo mercado de trabalho dificilmente absorverá os excluídos do processo anterior.
São os casos que diariamente podemos constatar aqui num Pais pequeno como o nosso. A Brisa deixa de ter cobradores, o Continente muito menos operadoras de caixa, os Bancos menos gestores de conta, os aeroportos menos operadores mas mais check-ins electrónicos, empresas apenas com catálogos na internet, oficinas com diagnósticos electrónicos, fábricas com cada vez menos trabalhadores, farmácias com mais robots e menos farmacêuticos, atendimento telefónico com máquinas e não com gente.
Este artigo teve a sua génese numa notícia que foi transmitida por vários órgãos de comunicação social, em que referia que o grupo responsável pela montagem dos Iphones e Ipads da Apple na China, a FOXCONN, está a planear substituir os seus trabalhadores por Robots, querendo a empresa reduzir eventuais subidas dos custos laborais e utilizar 1 milhão de robots dentro de 3 anos. A companhia usa actualmente 10.000 robots ! O presidente a Foxconn pretende atribuir funções mais qualificadas aos trabalhadores e utilizar os robots nas linhas de produção simples. Segundo um analista da Reuters , “ o aumento dos custos salariais deve ser a principal razão para que a Foxconn tome esta atitude, uma vez que o aumento salarial deste ano foi bastante significativo. Se não fizerem isto terão que deslocar as suas fábricas para outros locais”, acrescentou.
Tudo isto dá-nos que pensar, pois de forma alguma os mercados irão absorver os milhões de licenciados e outros trabalhadores de todo o mundo, enquanto algumas regras efectivamente não mudarem.
Neste contexto aparecem o interesse dos trabalhadores, dos estudantes e daqueles que na prática são os seus interlocutores, ou sejam, os sindicatos e o sindicalismo.
Os Sindicatos tal como nos aparecem neste momento, morreram ou estão condenados a isso mesmo em pouco tempo, pois regra geral funcionam com regras desfasadas da actual realidade, ou seja da economia global. O neo-sindicalismo luta com dificuldades, pois existe muito descrédito dos trabalhadores para com estas organizações que dizem defendê-los, pois na prática são orientados por políticos ou outros desacreditados que lá estão para terem beneficio directo desse mesmo cargo, com base nas complacências que ainda vão tendo nos planos jurídicos de cada País. A democracia existe plena actividade de quem defenda os trabalhadores, e estes neste momento sentem-se completamente indefesos e desacreditados, sujeitando-se às leis do mercado, que os exploram duma forma mordaz e descarada, ou ainda pior os atiram para filas do desemprego enquanto algumas Seguranças Sociais tiverem capacidade de lhes dar alguma coisa.
O Neo-Sindicalismo tem que surgir com um novo modelo, com uma filosofia que se ajuste aos tempo modernos, que sejam credíveis para poderem ter legitimidade para defender os seus membros. Uma das soluções será terem interferência directa na elaboração de novas regras laborais, em que o emprego seja uma exigência concreta a nível global (por exemplo exigir que as empresas sejam obrigadas a ter determinada percentagem de trabalhadores em função dos seus lucros ou capitais sociais para a mesma actividade económica e a nível global). Para que tal aconteça, será preciso lutar duma forma também mais moderna (usando por exemplo toda actividade e fome de notícias dos media, inovando, fazendo exigências suprapartidárias, apresentando casos concretos de exploração e corrupção, denunciando o lucro a todo o custo). Também e porque não, com acções desesperadas de rua, atacando os núcleos mais irmanados do actual sistema, fazendo com que os governos os contemplem como um verdadeiro problema inadiável e sério. Caso contrário, mais ano mesmo ano, iremos ter uma nova Revolução, não Francesa mas quem sabe Europeia ou também global, pois a tradicional doutrina social do Velho Continente estará ela própria tão doente e incapaz, quanto as suas próprias políticas.

REGRESSO ETERNO

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A Terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.


A noite! Se fosse noite…
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes reflectem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.



Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho…
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

DE PROFUNDIS AMAMUS

Ontem às onze fumaste um cigarro
Encontrei-te sentado
Ficámos para perder todos os teus eléctricos
Os meus estavam perdidos por natureza própria.

Andámos dez quilómetros a pé
Ninguém nos viu passar
Excepto claro os porteiros
É da natureza das coisas
Ser-se visto pelos porteiros.
Olha
Como só tu sabes olhar
A rua, os costumes
O público
O vinco das tuas calças
Está cheio de frio
E há quatro mil pessoas interessadas
Nisso.

Não faz mal abracem-me
Os teus olhos
De extremo a extremo azuis
Vai ser assim durante muito tempo
Decorrerão muitos séculos antes de nós
Mas não te importes
Muito
Nós só temos a ver
Com o presente
Perfeito
Corsários de olhos de gato intransponível
Maravilhados, maravilhosos, únicos.
Nem pretérito nem futuro tem
O estranho verbo nosso.

O TERNO

O Manel comprou um terno
Às riscas , e de bom assento.
Uma vez que para casamento
Que se previa eterno,
Seu aspecto selava o contentamento.

O dia estava quente
E a boda maravilhosa!
E até a dona Rosa
Por hábito funesta e repelente
Parecia esplendorosa!!

Amigos, duas centenas achados
Galanteios e pancadinhas.
Lembro-me da dona Aninhas
Gabarolando os festejados
Profetizando suas criancinhas!


Mas com os anos passados
O Manel já não se ria
E mesmo com todos os cuidados
O terno já não lhe servia
Sofria!

Dona Rosa piorara
Do seu aspecto merdoso.
E até um amigo aconselhara
Deitar fora o jacoroso
Que em bom tempo tanto estimara!

Então lá se viu o rapaz
Mais solteiro e despojado.
Já não é o mesmo amado
Daquele dia fugaz
De terno bem alapado.

AMOR

Palavra tão pequena, mas de tanto Valor. Beleza interior nem sempre exteriorizada, de difícil definição, é um sentimento inexplicável.
Dor abrasiva ferozmente emotiva, sentida pelos corações… Sentimento celestial, reflectido na alma dos mortais.
Eterno ou não…Atingindo o seu auge na forma de paixão, por vezes se torna doentio.
De fácil transformação aquando ferido, o amor é dor: mortífera, aguda e dilacerante. Oceano gravado, nos olhos dos amados. Lágrimas que desaguam no sorriso de uns lábios.
Partilha de sonhos e conquistas nem sempre triunfais. Sentimento infinito, gravado por espetos de rosas brancas nos corações imortais.
Dávida divina de inacessível definição traduzida em gestos e carinhos, reflectidos no sincero companheirismo entre Seres.
O verdadeiro é ingénuo o mais puro e sublime de todos os sentimentos humanos. Emanado por cheiro a jasmim o amor é inocente, cristalino e transparente.
Sentimento profundo e crescente, necessitado de cultivo para se manter em chama sempre ardente.
O Amor é a verdadeira Essência da vida: Amar, Saber amar, e Ser amado.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

METAMORFOSE

Há uma frase de George Sand ( escritora femininista Francesa do Sec XIX ) que está de acordo com algo que me aconteceu este mês, e que possivelmente só algumas pessoas durante uma vida podem experimentar. Já vou contar. Ela dizia que Deus pôs o prazer tão perto da dor que muitas vezes chora-se de alegria. Foi precisamente este sentimento que me invadiu no passado Sábado. Nada de surpreendente mas que marca uma vida, neste caso algumas vidas.
Quando tinha 9 anos, eu vivia em Viseu juntamente com os meus pais. Meu pai já falecido era Eng. Civil e nessa altura Viseu era realmente uma província, onde os quadros fugiam como diabo a cruz, e assim nos Serviços de Urbanização ( hoje onde se encontra o Governo Civil ) , estava concentrada toda a logística de assistência Distrital no que respeita o obras de saneamento e abastecimento de água, em representação da Administração Central, pois as autarquias praticamente não tinham autonomia financeira. Assim se algum Município precisava de alguma obra mais de vulto, teria que se candidatar até à aprovação da obra, que só depois seria realizada. Havia nos Serviços de Urbanização apenas meia dúzia de Engenheiros para todo o Distrito, hoje quase todos com nome em ruas espalhados pela cidade. Como é de imaginar não faltava trabalho àquela gente, e ainda me recordo do meu pai ir para Resende, S João da Pesqueira, Moimenta da Beira etc, pois era dos mais novos, tal como hoje acontece, que se esperava mais força para trabalhar.
Isto a propósito que dada a escassez de tempo para um bom acompanhamento de todos os filhos, o meu pai resolveu que para minha esmerada educação, talvez o Colégio da Caldinhas – St Tirso ( perto da minha terra no Porto ), seria possivelmente o local mais indicado para essa finalidade. E se assim o pensou, assim o fez. Claro que o dito Colégio não era para todos, pois além de se ter que pagar as respectivas propinas nada baratas, tinha-se que obedecer a determinados requisitos sociais e religiosos. Daí que uma palavrinha ao então Bispo de Viseu não se fez esperar, e num ápice me tornei minhoto e de malas aviadas com o número 39. Como eu, vários “mobilizados” de todo o País, que por uma ou milhentas razões, nos encontramos no mesmo sítio com a nobilíssima tarefa de nos tornarmos alguém com a ajuda dos Jesuítas, que desde o Sec XVI tinham o “ Know-How” perfeito para esse objectivo. Decorria o ano de 1967.
Assim, a rapaziada miúda tinha que se desenrascar fora da mamã e do papá, com a bênção dos Jesuítas, em plena criancice. Não importa relatar pormenores, mas apenas salientar que todos acordávamos à mesma hora, comíamos à mesma hora, estudávamos e tínhamos aulas à mesma hora, recreio à mesma hora e outras actividades, praticamente durante 5 ou 7 anos, até termos “alta” de tão digníssima missão. Como o leitor deve imaginar, isto criou entre nós laços de amizade intensa, o que não quer dizer que as canelas, os livros e os travesseiros não dançassem em ocasiões cuja intensidade fosse propícia a uma descompressão. Seja como for, quando após 5 anos de labuta chegaram ao fim, foi ver o pessoal sair como abelhas em enxame espantado, ou seja, alguns nem tempo para se despedir tiveram, e como Facebook, Twetter e emails eram apenas profecias, a maior parte de nós perderam totalmente o contacto. E assim, todos aqueles momentos ficaram guardados na memória, e apenas isso, como uma recordação longínqua, um sonho ou até uma alucinação.
Outro dia o Pintor José Emídio, com a sua astuta visão e sensibilidade persistentes, descobriu-me no Facebook e muito a medo perguntou-me se eu era efectivamente o tal David, o 39 que sempre conviveu com ele e com os outros nos fatídicos anos 60. Claro que a partir daqui foi mais fácil reunir também os gémios Garcia ( os famosos alentejanos de Moura), o Veiga de Macedo de Vila da Feira, o Guterres e o Paulo da Covilhã, o César Barros de Matosinhos e o Abrunhosa do Porto. Marcamos um almoço em Lisboa e assim fomos a um encontro, quase 40 anos depois de nos termos visto pela última vez.
Alguns são avós, outros já foram operados mais do que uma vez, outros estão ainda em boa forma, mas todos fomos outra vez crianças. Nessa tarde rimos e brincamos novamente como no passado, com menos cabelo, com bigode ou a mancar. A borboleta foi novamente crisálida. Metamorfose da vida. Viemos também a saber que outros, infelizmente, já não faziam parte dela.
Como dizia Álvaro de Campos, é Outono no Outono, e o Inverno vem depois fatalmente; e há só um caminho para a vida, que é a vida….

LUAMARA

O Sol imperial e distante
Sorriu com o oceano e nele se deitou
Mas em breve reparou
Que sua amante, vigilante
Da triste cena corou.

O mar a contemplou
Possesso, vaidoso e deslumbrante.
E ela se admirou
De sua atitude mareante
Provocante!

- Como posso eu tão pequenina
Causar inquietude ao imensurável?
Devo ter algo invejável
Que meu pensamento não atina.
Inimaginável!

Sou eu a Rainha da dor
E tu o rei obsceno
Mestre do despudor
Que minha face consente
Diariamente!

Mas do garanhão exuberante
Trouxe a aurora o meu amante
Que afinal nunca me traíra
Mas apenas orgulhosamente saíra
Num fim de tarde escaldante.

Agora já o contemplo a brilhar
A meu lado como sempre.
Mas logo sairá novamente
Sem nunca me abandonar
Para sempre !

OS MEUS AMIGOS

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!

NAS ASAS DUM SONHO

Nas asas de um sonho voei
Para tocar o céu e a sua vastidão
O azul do aconchego,
o brilho da folia,
a centelha da paz,
a bruma do invisível,
o negrume do recolhimento.

Nas asas levava a esperança
No sonho o propósito...
Nas asas do sonho voei
E o céu tomei…
Tomei o sabor da viagem,
O sabor da liberdade,
A liberdade do impulso,
O impulso de ser feliz!

E nas asas do sonho voei
Percorri o oceano nunca antes mergulhado
Irrompi a tempestade dos receios …
Nas asas do sonho desmascarei e inventei.
Nas asas do sonho encontrei a mais bela criação de SER...
Voei na ventura sob o zelo eterno das asas…