Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

INVENTÁRIO

Um dente d'ouro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante


A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno


Um revolver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria


Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa


O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pé-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé


Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza


Um octogenário divertido
Um menino coleccionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

SE EU FOSSE...

Se eu fosse um Pássaro
Voava para a beira mar
Gaivota talvez… porque não???
Dos céus poderia te observar…
Se eu fosse o Sol
Aquecia-te com o meu calor
Iluminando os teus dias,
Sentirias o meu Amor…
Se eu fosse a chuva
A tua sede mataria
Gota a gota, molhava teu corpo
Eu sei; mas quem sabe… talvez um dia???
Se eu fosse a Lua
Nos teus sonhos iria entrar
E com a minha luz triste
Pedia-te… para Acreditar…
Se eu fosse um Rio
O teu caminho iria seguir
Trilho a trilho… até às ondas
E depois levar-te a fugir!
Se eu fosse uma Estrela
A tua vida iria iluminar
Perdida na noite
À terra buscar-te… levar-te comigo… vem sonhar!
Mas eu não sou nada…
Apenas uma eterna Apaixonada…
Triste… feliz… ou mesmo desorientada…
Sem Rumo… sem caminho… ou sem orientação…
Mas com memórias de uma tal alucinação…
Espírito Maligno… levaste-me à paixão…

O ESTRANGEIRO

Dia de festa
Sol dourado, janelas floridas
Santa padroeira no andor, fogos , casamentos.
Crianças, moços e velhos, caboclos simples da ribeira
Cantos sagrados, ladainhas. Segue a procissão.
O Homem
Jovem, alto, bonito, branco.
Cabelos castanhos ondulados, olhos azuis
Chapéu panamá, botinas lustrosas
Vestia terno de linho, uma brancura só.
Perfume de alfazema.
O Homem
Em tudo diferente dos dali
Largou da procissão
Cruzou a rua, passos largos
Entrou na bodega do Militão
Tomou da branca, pigarreou
Saiu, tomou a direção do rio
Cinquenta metros do Largo da Matriz.
Desceu as escadas do cais, passos largos
Caminhou rio adentro
O terno branco tingiu-se de terracota
Tempo de cheias, águas barrentas
O homem continuou indo, indo
A santa da procissão parou para olhar
O homem indo, indo, sumindo, sumiu.
Tempo de cheias, águas caudalosas.
Um chapéu panamá, branquinho
Boiava rápido, rápido, longe, longe
Arrastado pela correnteza.