Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

CORTE E ROTURA

CORTE E ROTURA

Este mês, e como esperado, viemos a ser contemplados pelo primeiro corte nos vencimentos da nossa história. Mesmo após a Revolução, não tenho nenhuma lembrança de tal ter acontecido. Não se trata apenas de choramingar em cima dum princípio tido por inabalável, mas também o culminar duma situação a que chegaram as finanças públicas. O Povo, no qual tenho a honra de me incluir, não tem a principal responsabilidade por termos chegado a este ponto. Então a quem deveremos pedir responsabilidades? Indiscutivelmente à classe política deste País, que ao longo dos anos não quiseram fazer as mudanças necessárias para evitar o inevitável. Estava à vista. Cheirava a fartura por tudo quanto era sítio, os sonhos eram transformados em pragmatismo imediato e até um pobre ficava rico com um bonito chapéu na cabeça, tal como uma prostituta com um lindo casaco de peles! Temos tido Ministros das Finanças que são prestigiados cá dentro e lá fora, professores universitários com indiscutível saber e reconhecidos. Se assim é, como explicar?
Lembra-me aqui há uns anos no Hospital de Évora, a morte de alguns doentes na unidade de hemodiálise devido a deficiências nos filtros das máquinas, que deveriam ter sido substituídos e não o foram atempadamente, resultando em intoxicação pelo alumínio da água da rede pública. Não o foram porque o médico responsável daquela unidade, embora profissional competente e de grande experiencia, não teve a coragem de bater com a porta quando a Administração do Hospital lhe adiava sistematicamente a substituição dos referidos filtros. Pelo contrário fazia vénias, sorriso de compreensão e pancadinha nas costas até que o inesperado aconteceu, pois a biologia humana não se compadece com favores. O clínico foi condenado precisamente por ter sido conivente com esta situação.
A competência implica coragem e determinação para que os atos daí resultantes não caiam em terra seca, e assim não mais possam germinar. Implica também rotura com o “lesser faire, lesser passer”, nem que isso nos custe o cargo, pois só desta maneira servimos o interesse público. Ao contrário, agrada-se ao Partido que nos colocou lá e ao mesmo tempo vamos dando alguma coisa ao pessoal votante mesmo quando o porta-moedas não o permita. Não é bem o Estado Social, pois este deveria ser dirigido para quem efectivamente precisa, com facturas mais baixas que as presentes, mas sim o Estado Providencial que do seu pedestal funciona como um Deus louco que na sua infinita misericórdia dá aquilo que não tem ou que foi buscar onde não devia. E tal como uma religião, aparecem por uns tempos seguidores em busca de ainda maiores proveitos.
Por isso os tais Ministros sabichões, de currículos impares e a suarem resultados noutros sítios, deveriam ser levados a prestarem contas e até condenados se assim de direito, pois ao contrário dos idiotas ou cretinos, sabiam muito bem aquilo que andaram a fazer e o que deveriam ter feito e não fizeram, porque não era politicamente correcto ou porque não era conveniente, tendo assim continuado com os resultados agora à vista. Saíram com a pasta limpa direitinhos para outro lado, este sim, tal como um oásis onde podem finalmente terem o mérito e o vencimento há tanto tempo aguardado. O que está em causa neste momento, não são as medidas que tiveram que ser tomadas e que porventura não haveria outra solução, mas o que nos levou a esta situação ao longo dos anos.
Tal como Eça de Queirós que uma vez escreveu ao Director das Águas de Lisboa, também eu tinha vontade em escrever ao nosso Primeiro-Ministro perguntando – Vª Ex.ª cortou-me o vencimento. Queira referir-me o que quer que eu também lhe corte, pois para além de justo, também ficaremos pagos.

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