Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

NOITE


Eu vivo
nos  bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.

PRATO DA VIDA


  Ingredientes:  Carinho, felicidade, amor, fraternidade, lembrança, jasmim, paixão, esperança





No prato da vida, vivida
Na esperança da fraternidade eterna,
Pus a levedar a seiva materna
Nesta época ressurgida
Com uma pitada de sal,
Pois estamos no Natal!

Polvilho com paixão esclarecida
Duma criança em busca de esperança.
Aqueço o forno em nome duma lembrança
Da felicidade da minha infância reaparecida,
Pois hoje é o dia da abastança
Que à tristeza e dor trouxe temperança!

Já sinto o cheiro do festim
Pois está na hora da partilha do amor.
Recheio de carinho, e para afinar seu odor
Enfeito com duas flores de jasmim.
À mesa do sonho irá ser servido
Grande parte deste meu prato preferido.


Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Nash, J


É possível provar matematicamente que o interesse de todos nós por vezes não é compatível com o interesse individual de cada um. Esta prova, matemática, foi suficiente para dar um Prémio Nobel em 1994 a um matemático ( J. Nash ), ainda por cima numa fase da sua vida que sofria de esquizofrenia, como se pôde ver ainda há pouco tempo num filme que andou a rodar em várias salas e até na TV, ‘ Uma Mente Brilhante ‘. Este princípio, o do Equilibrio,  é ainda muito aplicado hoje em dia  na gestão moderna em que os défices estão à frente do nariz, e o calote não se compadece com benesses sociais para ganho de eleições ou interesses de lobbies. 
 O Equilibrio de Nash  representa uma situação em que, em um jogo envolvendo dois ou mais jogadores, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente. Para melhor compreender esta definição, suponha que há um jogo  com n participantes. No decorrer deste jogo , cada um dos n participantes seleciona sua estratégia ótima, ou seja, aquela que lhe traz o maior benefício. Então, se cada jogador chegar à conclusão que ele não tem como melhorar sua estratégia dadas as estratégias escolhidas pelos seus n-1 adversários (estratégias dos adversários não podem ser alteradas), então as estratégias escolhidas pelos participantes deste jogo definem um "equilíbrio de Nash".

Só que rapidamente a memória é curta e o que hoje parece lógico e aceitável, ontem seria praticamente crime. Tudo isto no nosso País, teve e tem a meu ver a sua expressão máxima nos gastos do País em Saúde desde há alguns anos a esta parte.

Claro que a Saúde é uma coisa muito vasta, e uma das grandes áreas económicas do mundo. Em Portugal representa 16% da riqueza do País, um dos maiores negócios a nível nacional ( 12% do PIB ). Por outro lado o controlo deste negócio é cheio de ambiguidades, pois há vários interesses em causa ( das farmácias, da industria, dos prestadores, das seguradoras, dos próprios dirigentes de cada altura, dos políticos, e dos paus mandados dos políticos em áreas que não estão de todo preparados). Tudo seria mais fácil se tudo dependesse dum só organismo, o que hoje é praticamente impossível acontecer nesta nossa economia de mercado ou seja se o Estado fosse o controlador de todos estes sectores de interesse, pois teria armas de gestão que lhes daria muito maiores garantias de controlo da despesa do que aquilo que tem hoje. Mas esses tempos já lá vão e hoje seriam completamente impossíveis.

Isto leva ao que se chama, o Sistema de Financiamento da Saúde, que terá que ser coerente, pragmático e com regras fora do contexto puramente político (embora claro está tudo é político), que é o que está a acontecer na maior parte dos Países da EU. Não tenho duvidas que em Portugal, grande parte do lobbies estão dentro da Administração Pública, pois esta foi sempre usada como meio de combate por todas as forças políticas para ganhar eleições, ao mesmo tempo abençoados por filosofias de carácter social convenientes em função dos tempos. O que interessaria era que não houvesse reclamações, manifestações, notícias ou agitação que ponha em causa a rotina diária da hierarquia do poder (Secretário de Estado, ARS, Sub-Regiões , ACES e Representantes locais como Municípios, Freguesias e fundamentalmente Representantes locais dos partidos do poder ). Essa corja nunca entendeu, que alguém teria de pagar as ideias avançadas de gestão ruinosa de acordo com estes interesses, não só individuais como de grupos. O interesse de uns poucos, pagos por todos, camuflados de humanismo e preocupação com os mais desfavorecidos.

Apenas como exemplo, e numa zona que conheço bem, vejamos o que foi feito nos últimos anos, numa análise apenas dos factos. Como grande parte dos leitores deve saber, eu nunca fui director de nada, candidato a nada, inscrito em qualquer partido ou com interesses privados , pois trabalhei sempre em regime de exclusividade. Sou apenas um trabalhador da saúde como sempre fui.

Até 1995. O C S Vouzela esteve instalado, tal como os outros nos Concelhos vizinhos, em antigos Hospitais da Misericórdia ( O C.S  S.P.Sul ainda tem este privilégio, embora já se veja o novo,  a andar para a frente ). É público que o aluguer pago pelo edifício do C S Vouzela, extremamente degradado,  rondava os 800 contos por mês, uma autêntica fortuna para a época. Ou por isso ou porque veio dinheiro fresco da CEE, criou-se  com todo o merecimento, o actual C. Saúde na altura orçamentado em 400-500 mil contos. Este edifício com dois pisos funcionais, é um dos C. de Saúde  mais amplos, mais bem construídos e com melhores condições que eu conheço a nível Nacional e equipado na altura com o que de melhor estava preconizado.

Tinha 4 módulos, e estava estudado para 24.000 pessoas ( 4 x 6000 por cada módulo ). Tudo bem. Só que a população da Vila de Vouzela é de perto de 1500  pessoas e do Concelho 10562. Porém, ainda existiam como existem  4  Extensões de Saúde onde os utentes frequentam consultas ( equivalente em população a metade do Concelho ), pelo que aquela grandiosa obra estava a ser usada, e ainda está,  por 4 médicos e aproximadamente  5500  utentes. Falta o Delegado de Saúde com a sua sobrecarregada agenda. Não era politicamente correcto fechar Extensões, pois mesmo com esta obra realizada, era sempre muito incomodo retirar o médico das Extensões, onde a maior parte das vezes não havia condições de trabalho ou qualquer apoio de enfermagem.
O novo C. de Saúde era equipado com  RX , máquina de Análises Clínicas, gabinete de audiometria  convenientemente forrado, gabinete de fisioterapia com algum equipamento base e gabinete de dentista. Tudo como manda a sapatilha….

O RX esteve anos sem funcionar, e só nos últimos anos tivemos o privilégio de ser lá colocada uma técnica, que dava apoio ao SAP da altura e que ainda hoje lá se encontra para fazer uma média de 4-5 RX/ dia. Temos uma técnica praticamente a tempo inteiro para tão árduo serviço.
A Máquina de Analises clínicas funcionou 1 mês, pois logo se viu que era incomportável nos gastos dos acessórios para se fazerem as respectivas análises. Pouco tempo depois foram lá buscá-lo e eu duvido muito que o tenham colocado utilizável em qualquer parte. Jaz em qualquer canto cheio de ferrugem e teias de aranha, possivelmente.
O gabinete de audiometria esteve acompanhado durante anos com uma boa poltrona, uma mesa modesta onde assentava a máquina dos audiogramas, até que por abandono total ou por ordem superior, foi recolhida. Duvido que se tenham feito mais de uma dúzia de audiogramas! A sala ainda lá está com funções diversas. O Gabinete de Fisioterapia também esteve anos completamente parado, e só há alguns anos funciona bastante limitado, com um técnico que lá foi colococado,fazendo actualmente o seu melhor. O mesmo aconteceu com o dentista. Anos sem lá aparecer ninguém, mas devido a um esperado contrato tivemos finalmente dentista durante uns tempos. Mas, há 3-4 anos que o gabinete está solitário, sem o ambiente doutros tempos, mas com a respectiva cadeira…sem dentista. Agora usa-se o cheque dentista nos consultórios particulares, possivelmente fica mais barato. O gabinete deverá ter o mesmo destino do aparelho de audiometria. A cadeira que se ponha a pau…

Todos os utentes tinham médico de família, e apesar disso havia SAP 24 H, onde a substituição das férias, fins de semana e feriados eram pagos com horas extraordinárias aos médicos, com direito a folga conforme a lei, e com dispensa no dia seguinte à enfermagem e pessoal auxiliar. Numa zona que contemplava os C Saúde de Oliveira de Frades, Vouzela, S Pedro do Sul e Castro Daire, que equivalia a uma população de aproximadamente  55.000  pessoas, haviam 3 SAP abertos 24 horas e 1 aberto 12 Horas. Isto para a dita população que cumulativamente todos tinham médicos de família, em alguns casos muito longe do limite legal de utentes. ( Não deve haver no mundo tamanha taxa de atendimento ). Vejam que Viseu tem 95.000  residentes  e nunca teve nenhum C. Saúde aberto 24 horas. Diziam que era por o Hospital estar aberto. Mas ao mesmo tempo queixavam-se que as pessoas só deveriam ir ao Hospital se fosse muito urgente! Ou seja, se me doesse um dente às 2 da manhã teria e tenho que ir ao Hospital!!

Numa campanha eleitoral, um Secretário de Estado, em visita à Extensão de Cambra ( que dista 5 Km da Sede que eu atrás referi, e que tem uma população residente de 1300 pessoas ), e não contente com o que viu,  resolveu abrir os cordões à bolsa e construir um  outro edifício de raiz para renovação da respectiva Extensão de Saúde, que hoje está praticamente às moscas, só sendo utilizada a tempo parcial por um médico, com enfermagem uma vez por semana. Com a abertura para breve da Unidade de Saúde Familiar em Vouzela, ou com o possível encerramento pelo Governo de Extensões com número abaixo dos 1500-1700 utentes, lá vai ficar mais uma obra para ser reconvertida.

Já no tempo do Ministro Correia de Campos, tomaram uma Douta decisão. Passam o SAP ( Hoje SUB ) para S Pedro do Sul, onde gastaram quase meio milhão de euros em transformar uma casa velha em remediável, com atendimento dito de Urgência com 2 médicos, 2 enfermeiros e restante pessoal por 24 horas/dia.( isto com instalações novas em Vouzela  onde não era preciso praticamente gastar dinheiro ). Colocaram ambulância do INEM em Vouzela toda a noite com 2 técnicos. Como não bastasse, instalaram o ACES no piso térreo do C.S. Vouzela. ( deram essa honra à terra como foi dito ..) Como se tratava dum organismo de vital importância para a Saúde (?), diria mesmo indispensável, mereciam instalações condizentes e então mais obras para acolher tão digno organismo que com o respectivo equipamento, deixaram o piso como novo. Vai daí e como o calor aperta, vários aparelhos de ar condicionado foram instalados , pois a malta trabalha melhor pela fresquinha . Contudo, passado quase um ano repararam que no piso de cima, onde os utentes eram atendidos, não existia qualquer unidade de ar condicionado, o que poderia ser incomodo caso algum jornalista mais ousado fosse tirar uma foto aquela paisagem . Uma fila de várias unidades em baixo e nada lá para cima.! Num esforço “ meritório “ , foram então instaladas novas unidades no piso de cima. Por minha parte o meu muito obrigado.

Fala-se que este  ACES vai ser encerrado brevemente !!

Estas realidades, embora locais, são uma amostra de como os recursos que tivemos foram gastos. O mais curioso é que alguns destes responsáveis estão a converter-se rapidamente nos defensores do nossos impostos e da poupança. O que nos vale é que agora os bolsos estão mesmo vazios e já não há crédito, e ainda bem.
Jonh Nash não deveria ter sido matemático, mas possivelmente astronauta. Aproveitava e levaria muito desta gente para o espaço, pois era lá que deveriam estar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A REVOLUÇÃO SEM CRAVOS


  São 2 horas da manhã. Caçadores 9 inicia o movimento, subindo em boa ordem  a Rua de S Bento tendo-se dirigido à Cadeia da Relação, onde estancou. A guarda da cadeia era fornecida por Alferes Malheiro, tendo sido convidado pelas forças em presença a aderir ao movimento. Este acedeu ao convite, mas só após recomendar ao sargento da guarda que vigiasse bem o edifício, não fossem os presos aproveitar o ensejo para se invadirem. Ninguém se lembrou que naquele momento lá dentro se encontrava João Chagas e que era natural que o libertassem para colocar o seu talento e esforço e energia ao serviço da revolução.  Quem eram os amotinados? Sargentos e praças, Sargentos Galho e Bandarra  , posteriormente acompanhados pelo 1º Abílio, que contra a vontade do Comandante e graduados , que não os conseguiram demover, vieram para a rua. Seguiu este regimento posteriormente para o campo de Santo Ovídio, ( hoje Praça de República ), onde se iria reunir com Infantaria 10.

Tenente Coelho era o chefe dos revoltosos de Infantaria 10. Um dos revoltosos foi avisar o Capitão Leitão, que morava próximo, tendo posto de imediato o capacete na cabeça e de pronto se dirigiu ao local. Estava bem longe de supor que uma vez chegado ao Campo de S. Ovídio, teria que assumir o comando superior das forças revoltosas.

No Campo de S. Ovídio os dois regimentos formaram deste modo: O de Caçadores 9 em quadrado, próximo da porta principal do Quartel de Infantaria 18; O de Infantaria 10 em dois Círculos na outra extremidade do Campo.

Uma vez concluída a formatura, soldados e populaça começaram a dar Vivas à Republica e ao Exercito, com apupos à Monarquia.

Momentos depois  o destacamento de Cavalaria 6, alojado na dependência do Quartel de Infantaria 18, nesse mesmo Campo, veio em galope formar na linha paralela à fachada. Ao mesmo tempo convergiam para o Campo as forças da Guarda Fiscal. As saudações e os vivas redobraram de intensidade.

Ponto da Situação: São 4 da manhã de 31 de Janeiro de 1891. Todas estas forças estavam revolucionadas e só aguardavam a saída de Infantaria 18, para iniciarem a marcha contra o inimigo monárquico.  Estes representados dentro do Porto pela Guarda Municipal e pela Polícia Civil.

Com as forças revoltosas especadas no Campo de S. Ovídio e cercadas por todos os lados pela Guarda Municipal, Infantaria 18 nem andava nem desandava, pois sargentos e oficiais não chegavam a acordo sobre a atitude a tomar. Neste regimento, 18 sargentos que tentaram levar duas companhias através da porta de armas para o Campo, mas as portas voltaria a fechar-se. Os revoltosos no lado exterior, juntamente com a populaça que cada vez mais crescia em número, faziam pressão para que o 18 aderisse ao movimento. Pegaram em machados, e vai daí abriram um rombo na porta do Quartel do lado da Lapa, preparando-se para entrar. Para evitar carnificina, o Capitão Leitão procurou convencer o Comandante do 18 , Coronel Lencastre de Menezes, a juntar-se aos revoltosos, tendo tido a promessa que seguiriam em breve.
Acreditava-se firmemente que este Regimento iria apoiar a revolta: Se assim fosse a vitória estaria praticamente no papo, pois teria um alto significado não só para a população civil mas para outros militares e Quartel-General o facto de estas tropas serem comandadas por um Coronel e muitos Oficiais. As adesões seriam inumeráveis e ninguém teria dúvidas em aceitar os factos consumados.

Enquanto isto decorria, as forças da Guarda Municipal, sob o comando do major Graça, retiraram prudentemente daquele local, deixando livres as ruas para evitar o confronto, e foram estacionar para a Praça da Batalha, junto ao Quartel-general (onde é hoje o Governo Civil) e do telégrafo. Os Revoltosos saíram finalmente do Campo de S. Ovídio e dirigiram-se pela rua do Almada até à Praça de D. Pedro, (actual Praça da Liberdade), onde deveriam ocupar os Paços do Concelho e efectuar a cerimónia da deposição do Monarca reinante e da Proclamação da República. “Pelas ruas o povo acenava com lenços, davam palmas e segundo o cronista, nunca tão espontânea e tão calorosa manifestação se produziu na bela cidade nortenha. Na rua a multidão engrossava a cada momento e era difícil romper perante a massa compacta que se aglomerava.”


Pouco passava das 6 da manhã, quando de repente se abriram as janelas dos Paços do Concelho e alguns indivíduos da classe civil apareceram a dar vivas à Republica, ao Exercito e aos Regimentos Sublevados. O Dr Alves da Veiga faz um discurso e foi anunciado os nomes das pessoas que deveriam constituir o governo provisório, entre as quais Rodrigues de Freitas, Joaquim Soares (Desembargador), Joaquim Albuquerque (Lente da Academia Politécnica ), Santos Reis ( médico ) , e Licínio Leite ( Banqueiro ).


O Capitão Leitão, vendo que em contrário do que lhe assegurara o coronel Lencastre da Infantaria 18, reconheceu que tinham sido traídos, uma vez que para além deste havia ainda a esperança que a Guarda Municipal também iria aderir. Também por via civil, veio a tomar conhecimento que a Guarda Municipal estava a ocupar posição na Praça da Batalha em plano defensivo, para proteger o Quartel-General e o telégrafo.

Os revoltosos (Capitão Leitão, Tenente Coelho e Alferes Malheiro) após confidenciarem, resolverem que o Capitão Leitão iria à frente das forças pela Rua de S. António ( hoje 31 de Janeiro ), e ao chegar à Praça da Batalha procuraria parlamentar com o Sub-Chefe do Estado Maior, Fernando de Magalhães, que os revoltosos consideravam inteligente e pessoa de carácter. Ele iria decidir em ultima instancia se a superioridade estava na verdade do lado dos sublevados e se a Guarda Municipal poderia submeter-se-lhes sem hesitações. Havia esta esperança uma vez que com a certeza quase absoluta que o Regimento de Infantaria 18 havia aderido, não era razoável nem patriótico que a Guarda Municipal não o fizesse, uma vez que estava praticamente sozinha nesta contenda. Assim os revoltosos, não tinham a menor intenção de derramar sangue de irmãos de armas ainda por cima convencidos que todo o exercito se sentia impelido a resgatar o País da humilhante situação em que se encontrava, devido aos governos da monarquia, que não se inspiravam nos sagrados interesses nacionais.

O Ataque:  “As forças do comando do capitão Leitão saíram da Praça de D. Pedro e principiaram a subida pela Rua de S António, em marcha de quatro,  levando à frente a banda de infantaria 10; Seguia-se-lhe a Guarda-fiscal e iam depois Caçadores 9. A Guarda Municipal formava no alto da rua, no adro escalonado de S Ildefonso, guardando a entrada na Batalha pelas ruas de S. Catarina, S. António, e de S Ildefonso. Uma multidão enorme acompanhava as forças da revolta em sua marcha, e esta artéria do Porto tinha uma aspecto quase d festa. Do povo saiam brados entusiásticos vitoriando os sublevados. A marcha das forças tinha o carácter insofismável dum passeio triunfal, em que eles pareciam recolher os aplausos pela vitória alcançada rapidamente e sem embate sensível. Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de S. António o povo que acompanhava os sublevados hesitou e recuou. O capitão Leitão olhou para cima e viu o guarda municipal em atitude defensiva, com as armas apontadas para a coluna. Não ligou grande importância ao facto e, como a banda de Infantaria 10 continuasse a tocar, não ouviu que de S. Ildefonso as cornetas tinham feito o sinal de alto-meia volta. A marcha prosseguia e de repente, saíram da forma dois soldados da guarda-fiscal, que se dispunham a disparar as armas contra a municipal, tendo de imediato sido repreendidos pelo Capitão Leitão que lhes ordenou: - Não atirem!..A guarda não nos faz mal!
Posteriormente colocando-se à frente da coluna, levantou os braços, como pretendendo afirmar à municipal que a atitude dos sublevados era pacífica. A guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lançou o maior pânico nas forças da revolta e nos populares que pejavam a rua de S. António. A marcha deteve-se, e num segundo produziu-se um precipitado movimento de recuo, e a coluna dissolveu-se, desordenada e a breve trecho a Rua de S. António ficou juncada de corpos inanimados e com despojos das vítimas. O capitão Leitão foi ferido na cabeça mas conseguiu escapar e conseguiu chegar até à Praça Nova. A Guarda Municipal abrigada por detrás das pedras continuava a disparar. Os soldados revoltosos, enquanto tiveram munições, iam respondendo com valentia ao ataque da força fiel ao regime monárquico. Estes valentes eram principalmente da guarda-fiscal e caçadores 9, pois infantaria 10 que estava no fundo da rua de S. António, ao começar o tiroteio fora forçada a recuar até à Câmara. Não mais se conseguiram organizar pois da Serra do Pilar, e outras baterias postadas nos ângulos de S. Bento e dos Loyos começaram a atacar os sublevados que ficaram encurralados nos Paços do Concelho. Um tiro de peça, arrombando a porta do edifício, mostrou aqueles valentes que a situação se definia irremediavelmente como a derrota da Republica. O capitão Leitão abandonou a casa da Câmara e pouco depois os outros combatentes imitaram-no, terminando a luta por volta das 9 da manhã.”

Oficialmente foram 12 as vitimas do movimento republicano, mas segundo a imprensa e estudo dos despojos abandonados e entrada de cadáveres nos Hospitais (Terço e Misericordia ) e os recolhidos das ruas, pensa-se que o numero efectivo rondaria os 50. O túmulo das vítimas “ Paz Aos Vencidos “ encontra-se no Cemitério do Repouso.

Terminados os julgamentos algum tempo depois em Conselho de Guerra, foram condenados s prisão maior celular ( e, na alternativa, na de degredo), João Chagas, Verdial, Capitão Leitão, os sargentos Abílio, Galho, Silva Nunes e outros. O tenente Coelho foi condenado a 5 anos de degredo. Os Regimentos de Caçadores 9 e Infantaria 10 também sofreram castigo exemplar: O Governo dissolveu-os.

Reparem os leitores, principalmente os mais velhos, as semelhanças com o que aconteceu 83 anos depois com a Revolução do 25 de Abril. Com a diferença que nesta ultima não houve qualquer resposta da Guarda Republicana que respeitou o povo em simbiose com o militares, não havendo derramamento de sangue. A 31 de Janeiro de 1891, no Porto, não houve cravos mas lágrimas, e os ideais revolucionários tiveram ainda que esperar alguns anos.


Baseado na Revolução de 31 Janeiro – Jorge Abreu , Ed Casa Alfredo David - 1912

VIVENDO


Contemplando  e por vezes sonhando
Ia a Vida passeando
Através dos domínios terrenos.
Recordando,
Pensando.

Donde vens tão apressada
Oh  Morte ?
Que da tua sorte
Eu não perduro nem alimento,
Afugento.

- Trágico  destino o teu
Oh  Vida !
Que por mais que te afastes
Mais perto de mim te encontras
P¢ra contas!

- Estou então prisioneira
Por ti encarcerada,
Procurando a felicidade
Mesmo o destino sabendo,
Morrendo!

Busca vã , mas aterradora
Nas entranhas do que é belo.
Para que te possa enfrentar
Nesse duelo, vencendo
Vivendo…

A CIDADE DO SONHO


Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.

Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Prometida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe... 

ILUSÕES


Dos restos de amor, faço poesias.
Das lembranças, construo uma saudade
Dos dias que se foram, a mocidade
Que, aos poucos, de mim, se distancia…

Das minhas ilusões, faço castelos
Povoados por fantasmas do passado.
E os quadros, na parede emoldurados,
Tem, como estampas, os rostos mais belos.

A solidão é a rainha de tudo!
E o desespero é o seu escravo mudo,
Que se esconde sempre em meu coração…

E assim eu vou mantendo este reinado:
- enquanto resta um sonho , não sonhado,
Que eu deposito na imaginação…

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

EMPREGO , GLOBALIZAÇÃO E NEO SINDICALISMO

A essência da vida
É andar para a frente,
Sem possibilidade de fazer ou intentar marcha a trás.
Na realidade,
A vida é uma rua de sentido único.

Agatha Christie


Globalização é um conjunto de transformações de ordem política, económica e social que estão a ocorrer no mundo nas últimas décadas. Está centralizada naquilo que os liberais chamam “ Aldeia Global “, onde os Países abandonam barreiras tarifárias e proteccionistas do seu mercado, abrindo-se ao comércio e capital internacionais. Todas estas alterações não são isoladas ou restritas mas consequentes, e por isso são acompanhadas por mudança nas tecnologias e na velocidade da informação, que estão ao alcance geral ou mais propriamente global, através da televisão, internet, telefone, computadores etc, fazendo haver uma homogeneização cultural entre os Países.
Claro que as consequências disto mesmo são as mudanças no modo de produção de bens e serviços com a instalação de fábricas e corporações em qualquer lugar do mundo, fazendo que os produtos não tenham apenas uma nacionalidade mas sejam essencialmente plurinacionais. Não será preciso dar exemplos pois eles são tantos que não caberiam neste artigo, mas não resisto a falar de toda a industria automóvel, Coca-Cola, Mcdonald´s , CNN, Zara, Axa , Exxon ou Apple.
Com a globalização, a temática principal das empresas passou a ser a competitividade. A rápida evolução nos modos de produção e os novos locais de produção obrigou as empresas a cortaram custos com o objectivo de terem bons preços no mercado, mas fundamentalmente não perderem a dita competitividade face à concorrência global. Como tal, representando as despesas com o emprego um dos factores mais caros na produção, serão principalmente os trabalhadores as principais vitimas deste processo. Assim vários postos de trabalho estão a ser eliminados, gerando aquilo que os economistas chamam de “ desemprego estrutural”, gerado pela automação em substituição à mão de obra. A tecnologia provoca desemprego e assim é usada como arma face à concorrência entre empresas de bens e serviços. Embora novos postos de trabalho estejam a ser criados na área de serviços, com base na formação e ultra-especialização de trabalhadores, o que é um facto é que este novo mercado de trabalho dificilmente absorverá os excluídos do processo anterior.
São os casos que diariamente podemos constatar aqui num Pais pequeno como o nosso. A Brisa deixa de ter cobradores, o Continente muito menos operadoras de caixa, os Bancos menos gestores de conta, os aeroportos menos operadores mas mais check-ins electrónicos, empresas apenas com catálogos na internet, oficinas com diagnósticos electrónicos, fábricas com cada vez menos trabalhadores, farmácias com mais robots e menos farmacêuticos, atendimento telefónico com máquinas e não com gente.
Este artigo teve a sua génese numa notícia que foi transmitida por vários órgãos de comunicação social, em que referia que o grupo responsável pela montagem dos Iphones e Ipads da Apple na China, a FOXCONN, está a planear substituir os seus trabalhadores por Robots, querendo a empresa reduzir eventuais subidas dos custos laborais e utilizar 1 milhão de robots dentro de 3 anos. A companhia usa actualmente 10.000 robots ! O presidente a Foxconn pretende atribuir funções mais qualificadas aos trabalhadores e utilizar os robots nas linhas de produção simples. Segundo um analista da Reuters , “ o aumento dos custos salariais deve ser a principal razão para que a Foxconn tome esta atitude, uma vez que o aumento salarial deste ano foi bastante significativo. Se não fizerem isto terão que deslocar as suas fábricas para outros locais”, acrescentou.
Tudo isto dá-nos que pensar, pois de forma alguma os mercados irão absorver os milhões de licenciados e outros trabalhadores de todo o mundo, enquanto algumas regras efectivamente não mudarem.
Neste contexto aparecem o interesse dos trabalhadores, dos estudantes e daqueles que na prática são os seus interlocutores, ou sejam, os sindicatos e o sindicalismo.
Os Sindicatos tal como nos aparecem neste momento, morreram ou estão condenados a isso mesmo em pouco tempo, pois regra geral funcionam com regras desfasadas da actual realidade, ou seja da economia global. O neo-sindicalismo luta com dificuldades, pois existe muito descrédito dos trabalhadores para com estas organizações que dizem defendê-los, pois na prática são orientados por políticos ou outros desacreditados que lá estão para terem beneficio directo desse mesmo cargo, com base nas complacências que ainda vão tendo nos planos jurídicos de cada País. A democracia existe plena actividade de quem defenda os trabalhadores, e estes neste momento sentem-se completamente indefesos e desacreditados, sujeitando-se às leis do mercado, que os exploram duma forma mordaz e descarada, ou ainda pior os atiram para filas do desemprego enquanto algumas Seguranças Sociais tiverem capacidade de lhes dar alguma coisa.
O Neo-Sindicalismo tem que surgir com um novo modelo, com uma filosofia que se ajuste aos tempo modernos, que sejam credíveis para poderem ter legitimidade para defender os seus membros. Uma das soluções será terem interferência directa na elaboração de novas regras laborais, em que o emprego seja uma exigência concreta a nível global (por exemplo exigir que as empresas sejam obrigadas a ter determinada percentagem de trabalhadores em função dos seus lucros ou capitais sociais para a mesma actividade económica e a nível global). Para que tal aconteça, será preciso lutar duma forma também mais moderna (usando por exemplo toda actividade e fome de notícias dos media, inovando, fazendo exigências suprapartidárias, apresentando casos concretos de exploração e corrupção, denunciando o lucro a todo o custo). Também e porque não, com acções desesperadas de rua, atacando os núcleos mais irmanados do actual sistema, fazendo com que os governos os contemplem como um verdadeiro problema inadiável e sério. Caso contrário, mais ano mesmo ano, iremos ter uma nova Revolução, não Francesa mas quem sabe Europeia ou também global, pois a tradicional doutrina social do Velho Continente estará ela própria tão doente e incapaz, quanto as suas próprias políticas.

REGRESSO ETERNO

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A Terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.


A noite! Se fosse noite…
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes reflectem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.



Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho…
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

DE PROFUNDIS AMAMUS

Ontem às onze fumaste um cigarro
Encontrei-te sentado
Ficámos para perder todos os teus eléctricos
Os meus estavam perdidos por natureza própria.

Andámos dez quilómetros a pé
Ninguém nos viu passar
Excepto claro os porteiros
É da natureza das coisas
Ser-se visto pelos porteiros.
Olha
Como só tu sabes olhar
A rua, os costumes
O público
O vinco das tuas calças
Está cheio de frio
E há quatro mil pessoas interessadas
Nisso.

Não faz mal abracem-me
Os teus olhos
De extremo a extremo azuis
Vai ser assim durante muito tempo
Decorrerão muitos séculos antes de nós
Mas não te importes
Muito
Nós só temos a ver
Com o presente
Perfeito
Corsários de olhos de gato intransponível
Maravilhados, maravilhosos, únicos.
Nem pretérito nem futuro tem
O estranho verbo nosso.

O TERNO

O Manel comprou um terno
Às riscas , e de bom assento.
Uma vez que para casamento
Que se previa eterno,
Seu aspecto selava o contentamento.

O dia estava quente
E a boda maravilhosa!
E até a dona Rosa
Por hábito funesta e repelente
Parecia esplendorosa!!

Amigos, duas centenas achados
Galanteios e pancadinhas.
Lembro-me da dona Aninhas
Gabarolando os festejados
Profetizando suas criancinhas!


Mas com os anos passados
O Manel já não se ria
E mesmo com todos os cuidados
O terno já não lhe servia
Sofria!

Dona Rosa piorara
Do seu aspecto merdoso.
E até um amigo aconselhara
Deitar fora o jacoroso
Que em bom tempo tanto estimara!

Então lá se viu o rapaz
Mais solteiro e despojado.
Já não é o mesmo amado
Daquele dia fugaz
De terno bem alapado.

AMOR

Palavra tão pequena, mas de tanto Valor. Beleza interior nem sempre exteriorizada, de difícil definição, é um sentimento inexplicável.
Dor abrasiva ferozmente emotiva, sentida pelos corações… Sentimento celestial, reflectido na alma dos mortais.
Eterno ou não…Atingindo o seu auge na forma de paixão, por vezes se torna doentio.
De fácil transformação aquando ferido, o amor é dor: mortífera, aguda e dilacerante. Oceano gravado, nos olhos dos amados. Lágrimas que desaguam no sorriso de uns lábios.
Partilha de sonhos e conquistas nem sempre triunfais. Sentimento infinito, gravado por espetos de rosas brancas nos corações imortais.
Dávida divina de inacessível definição traduzida em gestos e carinhos, reflectidos no sincero companheirismo entre Seres.
O verdadeiro é ingénuo o mais puro e sublime de todos os sentimentos humanos. Emanado por cheiro a jasmim o amor é inocente, cristalino e transparente.
Sentimento profundo e crescente, necessitado de cultivo para se manter em chama sempre ardente.
O Amor é a verdadeira Essência da vida: Amar, Saber amar, e Ser amado.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

METAMORFOSE

Há uma frase de George Sand ( escritora femininista Francesa do Sec XIX ) que está de acordo com algo que me aconteceu este mês, e que possivelmente só algumas pessoas durante uma vida podem experimentar. Já vou contar. Ela dizia que Deus pôs o prazer tão perto da dor que muitas vezes chora-se de alegria. Foi precisamente este sentimento que me invadiu no passado Sábado. Nada de surpreendente mas que marca uma vida, neste caso algumas vidas.
Quando tinha 9 anos, eu vivia em Viseu juntamente com os meus pais. Meu pai já falecido era Eng. Civil e nessa altura Viseu era realmente uma província, onde os quadros fugiam como diabo a cruz, e assim nos Serviços de Urbanização ( hoje onde se encontra o Governo Civil ) , estava concentrada toda a logística de assistência Distrital no que respeita o obras de saneamento e abastecimento de água, em representação da Administração Central, pois as autarquias praticamente não tinham autonomia financeira. Assim se algum Município precisava de alguma obra mais de vulto, teria que se candidatar até à aprovação da obra, que só depois seria realizada. Havia nos Serviços de Urbanização apenas meia dúzia de Engenheiros para todo o Distrito, hoje quase todos com nome em ruas espalhados pela cidade. Como é de imaginar não faltava trabalho àquela gente, e ainda me recordo do meu pai ir para Resende, S João da Pesqueira, Moimenta da Beira etc, pois era dos mais novos, tal como hoje acontece, que se esperava mais força para trabalhar.
Isto a propósito que dada a escassez de tempo para um bom acompanhamento de todos os filhos, o meu pai resolveu que para minha esmerada educação, talvez o Colégio da Caldinhas – St Tirso ( perto da minha terra no Porto ), seria possivelmente o local mais indicado para essa finalidade. E se assim o pensou, assim o fez. Claro que o dito Colégio não era para todos, pois além de se ter que pagar as respectivas propinas nada baratas, tinha-se que obedecer a determinados requisitos sociais e religiosos. Daí que uma palavrinha ao então Bispo de Viseu não se fez esperar, e num ápice me tornei minhoto e de malas aviadas com o número 39. Como eu, vários “mobilizados” de todo o País, que por uma ou milhentas razões, nos encontramos no mesmo sítio com a nobilíssima tarefa de nos tornarmos alguém com a ajuda dos Jesuítas, que desde o Sec XVI tinham o “ Know-How” perfeito para esse objectivo. Decorria o ano de 1967.
Assim, a rapaziada miúda tinha que se desenrascar fora da mamã e do papá, com a bênção dos Jesuítas, em plena criancice. Não importa relatar pormenores, mas apenas salientar que todos acordávamos à mesma hora, comíamos à mesma hora, estudávamos e tínhamos aulas à mesma hora, recreio à mesma hora e outras actividades, praticamente durante 5 ou 7 anos, até termos “alta” de tão digníssima missão. Como o leitor deve imaginar, isto criou entre nós laços de amizade intensa, o que não quer dizer que as canelas, os livros e os travesseiros não dançassem em ocasiões cuja intensidade fosse propícia a uma descompressão. Seja como for, quando após 5 anos de labuta chegaram ao fim, foi ver o pessoal sair como abelhas em enxame espantado, ou seja, alguns nem tempo para se despedir tiveram, e como Facebook, Twetter e emails eram apenas profecias, a maior parte de nós perderam totalmente o contacto. E assim, todos aqueles momentos ficaram guardados na memória, e apenas isso, como uma recordação longínqua, um sonho ou até uma alucinação.
Outro dia o Pintor José Emídio, com a sua astuta visão e sensibilidade persistentes, descobriu-me no Facebook e muito a medo perguntou-me se eu era efectivamente o tal David, o 39 que sempre conviveu com ele e com os outros nos fatídicos anos 60. Claro que a partir daqui foi mais fácil reunir também os gémios Garcia ( os famosos alentejanos de Moura), o Veiga de Macedo de Vila da Feira, o Guterres e o Paulo da Covilhã, o César Barros de Matosinhos e o Abrunhosa do Porto. Marcamos um almoço em Lisboa e assim fomos a um encontro, quase 40 anos depois de nos termos visto pela última vez.
Alguns são avós, outros já foram operados mais do que uma vez, outros estão ainda em boa forma, mas todos fomos outra vez crianças. Nessa tarde rimos e brincamos novamente como no passado, com menos cabelo, com bigode ou a mancar. A borboleta foi novamente crisálida. Metamorfose da vida. Viemos também a saber que outros, infelizmente, já não faziam parte dela.
Como dizia Álvaro de Campos, é Outono no Outono, e o Inverno vem depois fatalmente; e há só um caminho para a vida, que é a vida….

LUAMARA

O Sol imperial e distante
Sorriu com o oceano e nele se deitou
Mas em breve reparou
Que sua amante, vigilante
Da triste cena corou.

O mar a contemplou
Possesso, vaidoso e deslumbrante.
E ela se admirou
De sua atitude mareante
Provocante!

- Como posso eu tão pequenina
Causar inquietude ao imensurável?
Devo ter algo invejável
Que meu pensamento não atina.
Inimaginável!

Sou eu a Rainha da dor
E tu o rei obsceno
Mestre do despudor
Que minha face consente
Diariamente!

Mas do garanhão exuberante
Trouxe a aurora o meu amante
Que afinal nunca me traíra
Mas apenas orgulhosamente saíra
Num fim de tarde escaldante.

Agora já o contemplo a brilhar
A meu lado como sempre.
Mas logo sairá novamente
Sem nunca me abandonar
Para sempre !

OS MEUS AMIGOS

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!

NAS ASAS DUM SONHO

Nas asas de um sonho voei
Para tocar o céu e a sua vastidão
O azul do aconchego,
o brilho da folia,
a centelha da paz,
a bruma do invisível,
o negrume do recolhimento.

Nas asas levava a esperança
No sonho o propósito...
Nas asas do sonho voei
E o céu tomei…
Tomei o sabor da viagem,
O sabor da liberdade,
A liberdade do impulso,
O impulso de ser feliz!

E nas asas do sonho voei
Percorri o oceano nunca antes mergulhado
Irrompi a tempestade dos receios …
Nas asas do sonho desmascarei e inventei.
Nas asas do sonho encontrei a mais bela criação de SER...
Voei na ventura sob o zelo eterno das asas…

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O APRENDIZ DE CARNICEIRO

Saiu em tudo que são noticias em todo o Mundo, a prisão de Ratko Mladic, ex chefe militar dos Sérvios da Bósnia, acusado de genocídio, crimes de guerra contra a humanidade durante a guerra da Bósnia ( 1992-95), pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia. No Curriculum apresenta 15 acusações de genocídio, extermínio, assassinatos, e deportações. Foragido desde 1995, Mladic de 68 anos, é considerado o maior obreiro da estratégia de limpeza étnica em algumas regiões da Bósnia, juntamente com o ex-presidente Karadzic, preso em 2008. Segundo a acusação teriam o plano de expulsar croatas e muçulmanos da Bósnia e assim incorporá-las na Grande Sérvia.

Baseando-se na máxima de que “ as fronteiras sempre foram traçadas com sangue e os Estados são delimitados com tumbas”, o general permaneceu impassível e impiedoso no cerco de Sarajevo durante 3 longos anos, onde morreram 10.000 civis ( entre 1992-95 ) em consequência de disparos de morteiros ou vítimas de franco-atiradores. Em Julho de 1995, as suas tropas apoderaram-se do enclave de Srebrenica, que teoricamente estava sob protecção da ONU, massacrando 8.000 muçulmanos desarmados – As forças Servias bombardearam Srebrenica durante 5 dias, e após estes bombardeamentos as forças terrestres de Mladic entraram na cidade e levaram mulheres e crianças em vários autocarros para território muçulmano, enquanto militares separavam os rapazes e homens entre os 12-77 anos para interrogatórios. Claro que os interrogatórios acabavam em grupos de 200 ou 300 homens, que passavam algum tempo a abrirem valas, regressando em seguida ao grupo de origem. Ao comando militar e em silencio, sem qualquer alvoroço e parecendo perceber que afinal o seu destino estava traçado, crianças e adultos, avós e netos eram fuzilados em frente das valas numa rotina impiedosa até ela ser considerada cheia, e assim sucessivamente até fazerem 8000 mortos em 5 dias. Ainda sequestrou 200 soldados da ONU que foram mantidos em lugares “ estratégicos “ para evitarem os bombardeamentos nesses locais. Também outra acusação está relacionada com a criação de campos de detidos em “ condições horríveis e desumanas de milhares de civis croatas e Muçulmanos da Bósnia “, que morreram em condições que a Procuradoria considera ter características de genocídio.

Pois bem, são estas as acusações contra o rapaz. Mas como em tudo , alguma verdade está também camuflada, e que ajuda a compreender o porquê de em plena Europa, tais acontecimentos terem ocorrido. O mais horrível de tudo é que uma das motivações mais importantes era realmente interromper a escalada muçulmana na Europa e no que tudo isso significa de mudança radical, social e religiosa, no mundo Ocidental. Sim , no fundo não era apenas uma questão de território ou de velhos ódios raciais, mas evitar a entrada e “ disseminação “ daquele grupo étnico para a Sérvia e em último caso para a Europa.

Repare o leitor que muito recentemente em França, no último Censo sob a presidência de Sarkosy resultam 3,5 milhões de pessoas que poderiam ser consideradas muçulmanas (de fé ou de cultura). Nesta estatística, não foram considerados os sans papiers ou imigrantes clandestinos, originários dos países muçulmanos e os franceses convertidos ao Islão. Sabemos que a população Francesa é neste momento perto de 65 milhões, donde os muçulmanos representam 5% da população residente. Mas o que os estudos populacionais também mostram é que os Franceses têm em média 1.4 filhos por casal, enquanto os muçulmanos tem 6 a 10 filhos, o que a médio prazo vai fazer subir consideravelmente os 5% de Argelinos, Tunisinos, etc. Por isso há quem se perturbe com a mudança do ponto de vista social e religioso que isto poderá ocasionar, e a considerar este tipo de situação como indesejável, e até como uma praga. Não se é Xenófobo ou Racista por acaso, ou simplesmente por não se gostar da cara de alguém.
Aqui o que temos de compreender é que bem juntinho de nós, enquanto nós trabalhávamos e os nossos filhos estavam na escola, isto que parecia impossível e completamente irracional de acontecer na nossa Europa após a praga Hitleriana, estava realmente acontecendo, com o marasmo de grande parte dos países acabrunhados e medrosos, apenas querendo aparecer na fotografia no meio de jipes e capacetes azuis. Afinal a chacina daqueles povos não era nada connosco! O dever de lamentar e de noticiar sim, e tal como Pilatos aquilo não nos dizia respeito e portanto “ lesser faire, lesser passé”!! Afinal Os Estados Unidos estão bem longe, e este problema se não é deles, muito menos é nosso.

A historia repete-se, primeiro como tragédia, a segunda como farsa ( Karl Marx ).
No fim de contas há coisas bem piores: Adolfo Hitler ( 6 milhões de judeus e outras etnias de 1939-1945 ); Holodomor ( 2,6-10 milhões - é o nome atribuído à fome de carácter genocidário, que devastou principalmente o território da República Socialista Soviética da Ucrânia (integrada na URSS), durante os anos de 1932 - 1933. Como tal, é por vezes designado de "Genocídio Ucraniano" ou "Holocausto Ucraniano", significando que essa tragédia seria resultante de uma acção deliberada de extermínio, desencadeada pelo regime soviético, visando especificamente o povo ucraniano, enquanto entidade socio-étnica; Pol-Pot e os Kmeres Vermelhos( Camboja 1975-1979 – 2 milhões que representavam 25% da população do País) ; Ruanda ( 1994 – 800.000 ) e finalmente Dahfur ( 2003 – 400.000 ).

Por isso, vendo bem a coisa, Ratko Mladic não passava de um aprendiz de carniceiro.

COISAS...

Vem o Clídio se queixando
Que a velhice o trata abaixo de cão
E tem razão,
Pois eu em minha observação
Vi que ele não estava delirando
Mas a falar com o coração.

Vem o Letras improvisando
Doença, que é sua satisfação.
Mas em sua inquietação
Eu topo angústia e consternação;
E me deixa pensando
Quem de nós terá razão ?

No meio do lameirão
Há quem se queixe por inteiro
E há quem se queixe à prestação.
Seja doutor ou engenheiro
Todos seguem seu condão
Todos reservam sua condição.

Para surpresa geral e pasmo de admiração
O coxo começou a andar.
O deficiente encontrou a razão.
Qual remédio salutar
Alterou a situação
Que parecia para sempre perdurar?

Onde está essa poção maravilhosa
Que nos cegos pôs visão
Ou nos mudos palavrão?
Onde está o boticário da imaginação ?
Dono dessa pílula famosa
Amante da contradição!!

Carinho !!
Não se encontra em blister ou infusão.
Mas ninguém me tira a impressão
Que tal como um passarinho
Faz milagres em quem poisa.
Coisas!!!

INVENTÁRIO

Um dente d'ouro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante


A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno


Um revolver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria


Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa


O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pé-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé


Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza


Um octogenário divertido
Um menino coleccionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

SE EU FOSSE...

Se eu fosse um Pássaro
Voava para a beira mar
Gaivota talvez… porque não???
Dos céus poderia te observar…
Se eu fosse o Sol
Aquecia-te com o meu calor
Iluminando os teus dias,
Sentirias o meu Amor…
Se eu fosse a chuva
A tua sede mataria
Gota a gota, molhava teu corpo
Eu sei; mas quem sabe… talvez um dia???
Se eu fosse a Lua
Nos teus sonhos iria entrar
E com a minha luz triste
Pedia-te… para Acreditar…
Se eu fosse um Rio
O teu caminho iria seguir
Trilho a trilho… até às ondas
E depois levar-te a fugir!
Se eu fosse uma Estrela
A tua vida iria iluminar
Perdida na noite
À terra buscar-te… levar-te comigo… vem sonhar!
Mas eu não sou nada…
Apenas uma eterna Apaixonada…
Triste… feliz… ou mesmo desorientada…
Sem Rumo… sem caminho… ou sem orientação…
Mas com memórias de uma tal alucinação…
Espírito Maligno… levaste-me à paixão…

O ESTRANGEIRO

Dia de festa
Sol dourado, janelas floridas
Santa padroeira no andor, fogos , casamentos.
Crianças, moços e velhos, caboclos simples da ribeira
Cantos sagrados, ladainhas. Segue a procissão.
O Homem
Jovem, alto, bonito, branco.
Cabelos castanhos ondulados, olhos azuis
Chapéu panamá, botinas lustrosas
Vestia terno de linho, uma brancura só.
Perfume de alfazema.
O Homem
Em tudo diferente dos dali
Largou da procissão
Cruzou a rua, passos largos
Entrou na bodega do Militão
Tomou da branca, pigarreou
Saiu, tomou a direção do rio
Cinquenta metros do Largo da Matriz.
Desceu as escadas do cais, passos largos
Caminhou rio adentro
O terno branco tingiu-se de terracota
Tempo de cheias, águas barrentas
O homem continuou indo, indo
A santa da procissão parou para olhar
O homem indo, indo, sumindo, sumiu.
Tempo de cheias, águas caudalosas.
Um chapéu panamá, branquinho
Boiava rápido, rápido, longe, longe
Arrastado pela correnteza.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A CIGARRA E A FORMIGA

Tendo a cigarra em cantigas no inverno
Passado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.
- "Amiga", diz a cigarra,
- "Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes d'agosto
Os juros e o principal."
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
- "No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: - "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
- "Oh! bravo!", torna a formiga.
- "Cantavas? Pois dança agora!"

A propósito desta fábula atribuída a Esopo e recontada por La Fontaine, fez-me lembrar que por vezes há gente que não aprende. Isto não é forçosamente bater no ceguinho, mas apenas uma constatação. O 25 de Abril foi outro dia, e cá está novamente o FMI , que mesmo não ferrando na gente, obriga a subir impostos e a perda de regalias que tínhamos por certas. Ou seja, a devolver tudo aquilo que não poderíamos ter recebido. Tivemos mais sorte que a cigarra, pois nós ainda tivemos quem nos emprestasse!

Também a propósito de quem nos vai comandar em tão hercúlea tarefa, li e apreciei uma outra Fábula, do mesmo autor, que também passo a descrever.


Reunião Geral dos Ratos

Uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim um rato jovem levantou-se e deu a ideia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar a sineta no pescoço do gato?

Tal como na Fábula, falar é uma coisa, mas fazer é outra completamente diferente. Belos discursos, montando catedrais e fugindo da realidade, ou seja pendurando no povo a sineta da ilusão vai ter como consequência a bestialidade. Muitos de nós não lhes colocaríamos no pescoço a sineta, mas sim uma corda. Mas também como nas Fábulas, por vezes os gatos também têm sete vidas…

CINTILANDO

Canta o coro em frenesim
Lembrando a fé distante.
Coração radiante
Desses tempos de alecrim,
A música radiante…

Cintilando aos tempos
Resistindo ao desgaste
Cantando.
Penetrando e enchendo
De amor e contratempo
Lembrando…

Do órgão ao cravo
Apaixonado!
Vai o artista mostrando
Cantando,
O seu som vibrando
Improvisado!


Onde nasceste, ó som da gloria
Fruto do trabalho do operário
Que sem bitola
Te imola !
Te eterniza!


Porque passeias no tempo
Oh viajante do passado!
Escravizando o poeta,
Impondo-lhe a meta
Fazendo-o amar sem ser amado!


Assim serás sempre
Por esses tempos fora !
Única e formosa
Brincando…
Cintilando…

O PIRILAMPO E O SAPO

Lustroso um astro volante
Rompera as humildes relvas:
Com seu voo rutilante
Alegrava à noite as selvas.

Mas de vizinho terreno
Saiu de uma cova um sapo,
E despediu-lhe um sopapo
Que o ensopou em veneno.

Ao morrer exclama o triste:
--Que tens tu de que mi acuses?
Que rime em meu seio existe?
Respondeu-lhe: - Porque luzes?

AFORISMO

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

OS VAPORES DE DESCARTES

Achei curioso na leitura de Descartes, sim esse francês filosofo e matemático que a maioria de nós teve de estudar na Filosofia, que actualmente já estava no fundo da prateleira, no seu famoso Discurso do Método, sobre as Paixões da Alma.
Como médicos, e mesmo aqueles que não os são, achamos evidentemente piada aos considerandos que na altura eram tidos como prováveis ( Sec XVII ). Desse livro retirei dois pequenos trechos que passo a citar:
ART. 128: Da origem das lágrimas
Assim como o riso nunca é causado pelas maiores alegrias, assim as lágrimas nunca provêm duma extrema riqueza, mas somente da que é moderada ou seguida de qualquer sentimento de amor ou alegria. E para bem compreender a sua origem é preciso notar que, embora continuamente saiam muitos vapores de todas as partes do corpo, não há, todavia, nenhuma donde saiam tantos como dos olhos, em virtude da grandeza dos nervos ópticos e do número de pequenas artérias por onde esses vapores a eles chegam; e que , assim como o suor se compõem apenas dos vapores que, saindo das outras partes, se convertem em água à superfície, assim as lágrimas se formam dos vapores que saem dos olhos.
ART. 131: Como se chora de tristeza
…A tristeza é propícia a isso, porque resfriando todo o sangue, contrai os poros dos olhos. Mas como à medida que os contrai, diminui também a quantidade de vapores a que devem dar passagem, isso não basta para produzir lágrimas, se a quantidade desses vapores não for ao mesmo tempo aumentando por qualquer outra causa. E nada a aumenta tanto como o sangue, que é enviado do coração, na paixão do amor. Por isso observamos que os que estão tristes não vertem continuamente lágrimas, mas apenas intervaladamente, quando fazem qualquer nova reflexão sobre os objectos que os emocionam.

ERA UM REDONDO VOCÁBULO

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste.
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa.

" TE "

Não sei bem o quê, quem, quando, onde.
Mas
quero...tanto.
Dói de tanto querer, desejar, ter, possuir.
Dor quente,
linda, frenética, intolerável de meiga e
agressiva...
Quero...
Preciso...
Te, a ti, para ti, de ti...para
mim.
Afinal é de ti...
Afinal...quero-te.
Poder-me-ei permitir a tal
veleidade?
Poder-me-ei ofertar com tal prémio?
Poder-me-ei ofertar...a
ti? Querer-me-ás? Merecer-me-ás?
Não quero saber...não me
interessa.
Afinal que diferença faz o quê, o quem, o quando, o onde, se,
apenas...quero.
Quero porque sei que existo.
A ti, porque és a prova da
minha existência. Inexoravelmente.

NÁUFRAGO

No entardecer
Misturam-se as cores do arrebol
Espalhado sobre as águas calmas
De uma casual utopia…


Do sereno
As lágrimas se pranteiam
E fria a lua da noite se apossa
Do véu no céu azulado
E como encanto
Passeia por sobre os mares!

O vento alvoraçando as vagas
Ondula no meu olhar sereno,
Preso na escuridão do mar
Além…
Enquanto a saudade
No meu peito navega:


Eis em mim um náufrago
De ninguém que se apega
A escombros fragmentados de solidão,
Buscando distante
Da imensidão que de mim se afasta,
O brilho do teu olhar
Qual farol piscante ao longe
Que de mim se despede…
E depois se apaga!

segunda-feira, 7 de março de 2011

TRISTESSE

Mais um dia de cacimba
Para acrescentar a todos os outros de aspecto similar,
Mas neste em particular
Sinto a inquietude da desesperança
O viver do desistente
O triunfar da derrota
A tristeza!


Sou um espectador inocente
Do dia a dia emergente,
Observando o desenrolar do conto
E todo o seu contingente.
Gente vulgar e inocente
Como artistas e poetas emergentes
Mas descrentes!


Da masturbação política e ideológica
Na impregnação das consciências.
Da centralização do eu
Na indiferença da morte e solidão.
Da realidade metafórica da defecação intelectual.
Da expectoração Big Brothal.
O Mourinhar da multidão !


Sou um filho da mãe parido
Para viver em degredo.
O futuro é um pensamento delirante do desconhecido
Proxeneta da solidão,
Em comunhão com o rastejar das desilusões.
O sangue foge-me do braço
Num coração adormecido.


Então para quê viver tal situação?
Consagração da natividade ou purga de perfeição?
Epistomologia da vida !
Cada vez mais insegura e desconhecida.
Tributo laico ao Cosmos
No palco do nascer do sol.
Sacerdócio figurativo!

domingo, 6 de março de 2011

MARIA ANGELINA E SEUS PARES

Estávamos em Abril de 1846. Costa Cabral, numa tentativa de modernizar o Estado, começou a mexer nos privilégios de uns e nos hábitos de outros, e dado que se necessitava de uma reforma fiscal modernizadora, tudo começou a ter que pagar imposto, e vai daí toca a recensear propriedades, feituras de matrizes prediais chamadas pelos populares de “ Papeletas da Ladroeira “, tudo isto com a finalidade de encher os cofres o mais depressa possível. Como uma miséria nunca vem só, também há que moralizar os costumes rapidamente, e vai daí com o decreto de 28 Setembro de 1844, proibiu-se de repente o enterro dos cadáveres nas Igrejas, obrigando os mesmos a serem efectuados em Cemitérios. Isto em nome da modernidade e da reforma . Por via da nova regulamentação dos serviços de saúde, o povo teria de romper com a tradição multissecular de enterrar os defuntos nas igrejas, esperar que o delegado de saúde certificasse o óbito pagando-lhe, e ainda arcar com as despesas do funeral.
Múltiplos incidentes e arruaças isoladas, ocorridos um pouco por todo o país mas com maior relevo no norte , tendo o mais violento ocorrido na freguesia de Fonte Arcada ( Póvoa de Lanhoso ), onde tendo falecido uma tal Custódia Teresa, o povo não permitiu que o comissário de saúde viesse atestar o óbito tendo-o espancado, nem os familiares aceitaram pagar a taxa de covato. O enterro terá sido mesmo feito sem acompanhamento religioso, por o pároco ter recusado participar no desacato, embora o povo alegasse que o fazia por razões religiosas, pois que se o corpo fosse enterrado fora da igreja, noutro chão qualquer que não o do templo, o morto estaria desprotegido. Talvez por considerarem menos provável que as autoridades agissem de forma violenta contra mulheres, parecem estas ter tido papel preponderante nos eventos e foram às mulheres do lugar de Simães que se imputam as principais culpas. Esta imagem de liderança feminina também pode ter resultado da forma como o evento foi descrito pelas autoridades, que procuraram minimizar os incidentes atribuindo-os a grupos de beatas fanatizadas pelos apostólicos.
Perante os factos, as autoridades resolveram prender as cabecilhas da revolta e proceder à exumação do cadáver e à sua sepultura no terreno destinado a cemitério. Para tal a 24 de Março dirigiram-se à freguesia, tendo sido recebidas à pedrada pela população armada com foices, chuços e varapaus. Sem poderem exumar o cadáver, procederam à prisão de quatro mulheres que foram consideradas cabecilhas dos incidentes dos dias anteriores: Joaquina Carneira, Maria Custódia Milagreta, Maria da Mota e Maria Vidas. Quando na manhã seguinte compareceram para o levantamento do auto o juiz ordinário, o delegado e mais oficiais de Justiça, intervieram umas 3 centenas de mulheres armadas de chuços, foices e varapaus e puseram-nos em fuga. Escorraçadas as autoridades, trataram de libertar as presas, tocaram os sinos a rebate, e das populações vizinhas surgiu o mulherio armado, seguindo em grande bando rugidor para a Póvoa de Lanhoso, onde investiram contra a cadeia, arrombando as portas e soltando as encarceradas. Quando as autoridades procuravam identificar os insurrectos, a jovem Maria Angelina, que se estremava das mais apenas por estar vestida de vermelho, foi colocada no topo da lista. Como os circunstantes se recusavam a identificar os amotinados, ficou registada simplesmente por Maria da Fonte Arcada, depois abreviado para Maria da Fonte.
A revolta alastrava a toda a província, soltando algum dos bandos “ morras “ ao governo e aos Cabrais.
Costa Cabral, que a 20 de Abril de 1846, no auge da revolta, proferiu na Câmara dos Deputados uma intervenção onde, apesar de afirmar que há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, reconhece que a sublevação em curso no Minho é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos!. E Costa Cabral continua, reconhecendo que é um revolta sem chefe, na qual pontifica a mais ínfima classe da sociedade, executada por um bando de duas mil e quatrocentas a três mil pessoas, armadas com foices roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar.
Era pois o povo, iniciado em tumultos de mulherio, que estava em armas, na verdadeira acepção daquelas palavras. Contudo, à boa maneira Portuguesa, rapidamente a revolta popular foi cavalgada pelos movimentos políticos organizados e a ela se associaram todas as forças anti-cartistas e, por uma vez, convergiram numa luta comum todas as forças mais radicais do espectro político, incluindo a extrema-direita miguelista. Pretendiam o derrube dos Cabrais e mesmo o da Rainha ( D. Maria II ), mas muitos, ainda que sem o afirmarem com clareza, pretendiam também o fim do regime liberal, transformando-se na Guerra Civil da « Patuleia », que quer dizer pé descalço.
Esta rebelião, iniciada, primeiro em Fonte Arcada, concelho da Póvoa de Lanhoso, em Março de 1846, e depois propagada a outros pontos, ficou conhecida na História de Portugal como a Revolução da Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, embora não tivesse sido, no sentido etimológico e político do termo, uma verdadeira revolução. Foi antes uma sublevação popular, o primeiro genuíno movimento de massas dos tempos modernos em Portugal.
Este acontecimento, dos mais nobres de toda a nossa História, revela que o poder do povo, mesmo parecendo adormecido, poderá chegar a extremos e ultrapassar os limites do inimaginável. Isto também a propósito do que se está a passar em todo o Norte de África e Países Árabes. A coragem daquela gente não é nos tempos de hoje digna de desprezo e antes sim de forte apoio e solidariedade entre todos aqueles que não se deixam subjugar a interesses instalados e aparentemente irreversíveis. Tudo é reversível na evolução dos povos, dependendo da consciência social e cívica dos mesmos. A inércia, a indiferença, o assobiar para o lado, o criticar apenas para o vizinho do lado ou para o colega do emprego, o ir votar apenas , não nos levarão a lado nenhum. Está na hora da consciência cívica do País acordar e reivindicar, não dinheiro e subsídios, mas novas políticas com acção e objectivos claros, e não apenas de pseudo resultados a curto prazo. É preciso acção!!
Para isto, poderá ter que se estripar algumas Repartições de Finanças, atear fogo a alguns carros do Governo, atirar uns ovos e tomates e pacotes de leite nacional à Assembleia da República, dar poder Executivo ao Tribunal de Contas, criar suínos nos Governos Civis, colocar esses paus mandados dos partidos em regra medíocres e incompetentes a andar de bicicleta e a correr na rua em cuecas, subirem todos para os telhados em algumas Escolas e Centros de Saúde, pintarem as Universidades de roxo, bem como duma maneira geral a hostilizar as estruturas do Estado, bem como pôr os maus patrões e empregados a trabalhar. Não é preciso ETA para fazer os governantes entender que os votos que os mantêm lá, não são suficientes para eles próprios se apropriarem de tudo o que é nosso e de fazerem o que lhes dá jeito nessa altura, mas que precisam de estar atentos aos que os rodeiam. Isso de serem penalizados nas urnas passados 4 anos não chega, pois em quatro anos podem fazer asneira que chegue para 40 anos de sacrifícios e estagnação, e não serão eles a pagar a factura!
Assim, termino como no Hino:

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

PREFACIO DE OS GATOS

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.
Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários. [...]
Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»

CICATRIZ NA ALMA

Um bárbaro e forte retalho na face
Nefasta sangria da noite no dia
No rosto é essa fenda a impune farsa
Da forte nobreza a mostrar covardia

No semblante onde havia sorriso de encanto
Suplanta-lhe o canto a vesga alegria
De mão atrevida: essa noite sombria!
Que lhe arresta a vida e o sorriso espanta.

E as marcas de faca marcam-se num tempo
Onde velhos vampiros volitam sem lei
Agourentos e atacam essa face infeliz.

Banidas essa taras nas varas dos ventos
Aconchega-se n´alma um calórico alento
Mas no olhar, a tal marca, se fez cicatriz.


Francisco Borges.

AGORA ( NÃO ) PROFESSO

Agora não professo
nem sussurro ao vento
os segredos que reinvento,
remo na transumância dos dias.
O sonho, esse discípulo
da noite dissipada,
inspira-me à peregrinação.
Agora não tenho fronteiras,
mas quando o exílio da memória
me retém o espelho dos dias
ao sentido original das coisas
regresso, porque é necessário
ser contemporâneo do tempo.
Agora, sim, professo:
viver e abraçar os rumores
do presente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

CORTE E ROTURA

CORTE E ROTURA

Este mês, e como esperado, viemos a ser contemplados pelo primeiro corte nos vencimentos da nossa história. Mesmo após a Revolução, não tenho nenhuma lembrança de tal ter acontecido. Não se trata apenas de choramingar em cima dum princípio tido por inabalável, mas também o culminar duma situação a que chegaram as finanças públicas. O Povo, no qual tenho a honra de me incluir, não tem a principal responsabilidade por termos chegado a este ponto. Então a quem deveremos pedir responsabilidades? Indiscutivelmente à classe política deste País, que ao longo dos anos não quiseram fazer as mudanças necessárias para evitar o inevitável. Estava à vista. Cheirava a fartura por tudo quanto era sítio, os sonhos eram transformados em pragmatismo imediato e até um pobre ficava rico com um bonito chapéu na cabeça, tal como uma prostituta com um lindo casaco de peles! Temos tido Ministros das Finanças que são prestigiados cá dentro e lá fora, professores universitários com indiscutível saber e reconhecidos. Se assim é, como explicar?
Lembra-me aqui há uns anos no Hospital de Évora, a morte de alguns doentes na unidade de hemodiálise devido a deficiências nos filtros das máquinas, que deveriam ter sido substituídos e não o foram atempadamente, resultando em intoxicação pelo alumínio da água da rede pública. Não o foram porque o médico responsável daquela unidade, embora profissional competente e de grande experiencia, não teve a coragem de bater com a porta quando a Administração do Hospital lhe adiava sistematicamente a substituição dos referidos filtros. Pelo contrário fazia vénias, sorriso de compreensão e pancadinha nas costas até que o inesperado aconteceu, pois a biologia humana não se compadece com favores. O clínico foi condenado precisamente por ter sido conivente com esta situação.
A competência implica coragem e determinação para que os atos daí resultantes não caiam em terra seca, e assim não mais possam germinar. Implica também rotura com o “lesser faire, lesser passer”, nem que isso nos custe o cargo, pois só desta maneira servimos o interesse público. Ao contrário, agrada-se ao Partido que nos colocou lá e ao mesmo tempo vamos dando alguma coisa ao pessoal votante mesmo quando o porta-moedas não o permita. Não é bem o Estado Social, pois este deveria ser dirigido para quem efectivamente precisa, com facturas mais baixas que as presentes, mas sim o Estado Providencial que do seu pedestal funciona como um Deus louco que na sua infinita misericórdia dá aquilo que não tem ou que foi buscar onde não devia. E tal como uma religião, aparecem por uns tempos seguidores em busca de ainda maiores proveitos.
Por isso os tais Ministros sabichões, de currículos impares e a suarem resultados noutros sítios, deveriam ser levados a prestarem contas e até condenados se assim de direito, pois ao contrário dos idiotas ou cretinos, sabiam muito bem aquilo que andaram a fazer e o que deveriam ter feito e não fizeram, porque não era politicamente correcto ou porque não era conveniente, tendo assim continuado com os resultados agora à vista. Saíram com a pasta limpa direitinhos para outro lado, este sim, tal como um oásis onde podem finalmente terem o mérito e o vencimento há tanto tempo aguardado. O que está em causa neste momento, não são as medidas que tiveram que ser tomadas e que porventura não haveria outra solução, mas o que nos levou a esta situação ao longo dos anos.
Tal como Eça de Queirós que uma vez escreveu ao Director das Águas de Lisboa, também eu tinha vontade em escrever ao nosso Primeiro-Ministro perguntando – Vª Ex.ª cortou-me o vencimento. Queira referir-me o que quer que eu também lhe corte, pois para além de justo, também ficaremos pagos.

CENAS INFANTIS

Saltitam como pérolas no chão
Unidas
Divertidas.
Todas em manifestação
Pervertidas…

Sorrisos abundantes,
Gritos lancinantes
De raiva de eternos amantes.
Olhos verdejantes
Prados repousantes…

Beleza infinita,
Tradução aparente
De gente que não mente.
Cena bonita
Transparente


São pois movimento
Pleno de graça,
Virtudes do momento
Clímax de contentamento
De qualquer raça.

São estes sorrisos
Que me tornam feliz
Apreciando
Contemplando
Cenas infantis…

A LIGA DA DUQUESA

A senhora duquesa, uma beleza antiga,
de bastão de faiança, de cabelo empoado,
certo dia, ao descer do seu estopim dourado
sentiu desapertar-se o fecho de uma liga.
Corou. Quis apertá-lo (ao que o pudor obriga).
Mas, voltou-se, olhou... Tinha o capelão ao lado.
Mais um passo e perdeu-se o laço desatado,
e rebentou na corte uma tremenda intriga.
Fizeram-se pregões. Marqueses, Condes, tudo
procurava, roçando os calções de veludo
por baixo dos sofás, de joelhos pelo chão...
E quando já ninguém mais esperava - que surpresa! -
Foi-se encontrar por fim a liga da duquesa
no livro de orações do padre capelão.

AMANHECEU

O dia amanheceu na janela,
O sol espiava curiosamente o teu corpo adormecido,
Na mesma luz contemplei o teu rosto que dormia em paz,
E uma ponta de sorriso emoldurava teus lábios.

Já era hora, eu precisava ir,
Num ultimo desejo pude sentir o cheiro do teu amor,
Aí tive ciúmes do sol.
Então cobri a tua nudez com um lindo lençol de linho branco e saí.

Saí cantarolando a vida,
Desejei um bom dia ao dia,
Eu era o mais feliz dos mortais.

SONHOS

A noite em sua negritude
De lua fugidia
Faz brotar ao jardim onde avistam os meus olhos
As régias flores notívagas
Bebendo ao caldo a metamorfose
Dos astros
Servidas na esquina da rua
Onde caminhamos de passos
Tu e eu.
Nuvens densas, como a libélula
Salteando ventos e todos os beijos
Todos os beijos
( meus lábios também)
tatuaram tua boca de sedas e sangue
Teu perfume de ervas
E canto.
De meu amor a querer e mais
Os sonhos que habitaram,
Incólumes viajantes.
Imagens translúcidas
Projectadas sobre os dois travesseiros
Onde deitas
Na cama de madeira crua
As árvores em vida que já foram
E a nova estação de imagens se diluem
aos matinais clarões do amanhecer
Ficou da noite a sensação dos sonhos
Fica do dia ser amante dos teus sonhos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

IMAGENS

Há poucos dias ouvi uma discussão impressionante, ou talvez não, mas que pessoalmente me marcou e até me assustou. Não fiquem intrigados pois vou já dizer o que foi. Estava a ouvir a TSF, um programa chamado Pensamento Cruzado, que junta um Psiquiatra e uma Psicóloga a falar sobre variados temas de 5 minutos, nem tanto.
Fiquei a saber, que a indústria de implantes mamários está em plena actividade e performance, o que não me admirou. Contudo, quando se trata de jovens adolescentes e na vizinha Espanha, parece que uma em cada duas adolescentes, faz cirurgia de implante nesta idade, tornando-se a coisa mais natural do mundo, inclusive a nível de marketing, sendo frequente nas grandes cidades pinturas em autocarros e cartazes estimulando este procedimento.

Clínicas existem, que para “ atenuar “ algum mau estar que isto possa causar, fornece gratuitamente acompanhamento psicológico a quem necessitar, para que não se possa dizer que o acto em si é puramente pragmático.

No mínimo e atendendo a estas idades, poderemos concluir que há claramente uma cultura de imagem em plena concorrência com uma construção incompleta da identidade própria de cada indivíduo, que leva a uma espécie de adição sistemática de incompatibilidade entre a aceitação daquilo que somos e aquilo que de momento queremos ser, ainda por cima num corpo ainda em transformação. Possivelmente todo este mecanismo não parará ao longo duma vida, pois dum real conflito entre a própria pessoa e a sua imagem se trata, servirá sempre para atenuar conflitos próprios, ou ainda pior, para tentativa de resolução externa de algo previamente sonhado.

Para terminar, o acompanhamento Psicológico não existe para todo o tipo de situação, pelo que apenas se trata de desculpabilizar uma situação tida à partida como perfeitamente natural. O corpo não é uma escultura do pensamento, mas um cofre que o encerra e alimenta.

Bom mês para todos.

SONETO ANTICLERICAL

Se quereis, bom Monarca, ter soldados
Para compor lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da preguiça edificados:

Nos Bernardos lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos;
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:

Tudo extingui, senhor: fiquem somente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano aspérrima semente:

Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pívias, cações, e alcoviteiros.

O HOMEM BIOLÓGICO

Muitas vezes me pergunto
Porque o céu é tão distante
A lua tão fascinante
O sol tão brilhante?
Mas o palco é variante
No teatro radiante
Deste mundo desconcertante

Quem nos dá o libreto da vida ?
Quem nos transforma em actores?
Quem nos acorrenta às cenas e horrores
E aos constantes despudores
Deste quotidiano mecanizado
Desumanizado !
Massificado !

Vive-se na mediocridade dos actos
Da montagem de artefactos.
Esquece-se a vida
Que se torna pervertida.
Ouvem-se os latidos
Dos que são banidos
Por todos os lados.

Falam-me de liberdade
Tentaram a revolução
Existe a religião.
Mas o homem segue sua evolução
Com augúrios de excepção
Lembrando a extinta escravidão
Que parece lhe deixou saudade!

Como pode acontecer
Nascer e morrer sem conhecer
A cultura do presente e do passado!
Morrer sem saber
Quem é Bach ou Da Vinci
Dali ou Picasso, o Prado ou o Louvre?
Ir a enterrar sem ver o mar
Nem sequer o imaginar
Sem sequer o abraçar!!

Isso será certamente morrer sem ter nascido
Acordar sem ter adormecido
Desaparecer sem ter surgido.
Será o homem biológico
O transformador poluente
Que a vida consente.