Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.

domingo, 6 de março de 2011

MARIA ANGELINA E SEUS PARES

Estávamos em Abril de 1846. Costa Cabral, numa tentativa de modernizar o Estado, começou a mexer nos privilégios de uns e nos hábitos de outros, e dado que se necessitava de uma reforma fiscal modernizadora, tudo começou a ter que pagar imposto, e vai daí toca a recensear propriedades, feituras de matrizes prediais chamadas pelos populares de “ Papeletas da Ladroeira “, tudo isto com a finalidade de encher os cofres o mais depressa possível. Como uma miséria nunca vem só, também há que moralizar os costumes rapidamente, e vai daí com o decreto de 28 Setembro de 1844, proibiu-se de repente o enterro dos cadáveres nas Igrejas, obrigando os mesmos a serem efectuados em Cemitérios. Isto em nome da modernidade e da reforma . Por via da nova regulamentação dos serviços de saúde, o povo teria de romper com a tradição multissecular de enterrar os defuntos nas igrejas, esperar que o delegado de saúde certificasse o óbito pagando-lhe, e ainda arcar com as despesas do funeral.
Múltiplos incidentes e arruaças isoladas, ocorridos um pouco por todo o país mas com maior relevo no norte , tendo o mais violento ocorrido na freguesia de Fonte Arcada ( Póvoa de Lanhoso ), onde tendo falecido uma tal Custódia Teresa, o povo não permitiu que o comissário de saúde viesse atestar o óbito tendo-o espancado, nem os familiares aceitaram pagar a taxa de covato. O enterro terá sido mesmo feito sem acompanhamento religioso, por o pároco ter recusado participar no desacato, embora o povo alegasse que o fazia por razões religiosas, pois que se o corpo fosse enterrado fora da igreja, noutro chão qualquer que não o do templo, o morto estaria desprotegido. Talvez por considerarem menos provável que as autoridades agissem de forma violenta contra mulheres, parecem estas ter tido papel preponderante nos eventos e foram às mulheres do lugar de Simães que se imputam as principais culpas. Esta imagem de liderança feminina também pode ter resultado da forma como o evento foi descrito pelas autoridades, que procuraram minimizar os incidentes atribuindo-os a grupos de beatas fanatizadas pelos apostólicos.
Perante os factos, as autoridades resolveram prender as cabecilhas da revolta e proceder à exumação do cadáver e à sua sepultura no terreno destinado a cemitério. Para tal a 24 de Março dirigiram-se à freguesia, tendo sido recebidas à pedrada pela população armada com foices, chuços e varapaus. Sem poderem exumar o cadáver, procederam à prisão de quatro mulheres que foram consideradas cabecilhas dos incidentes dos dias anteriores: Joaquina Carneira, Maria Custódia Milagreta, Maria da Mota e Maria Vidas. Quando na manhã seguinte compareceram para o levantamento do auto o juiz ordinário, o delegado e mais oficiais de Justiça, intervieram umas 3 centenas de mulheres armadas de chuços, foices e varapaus e puseram-nos em fuga. Escorraçadas as autoridades, trataram de libertar as presas, tocaram os sinos a rebate, e das populações vizinhas surgiu o mulherio armado, seguindo em grande bando rugidor para a Póvoa de Lanhoso, onde investiram contra a cadeia, arrombando as portas e soltando as encarceradas. Quando as autoridades procuravam identificar os insurrectos, a jovem Maria Angelina, que se estremava das mais apenas por estar vestida de vermelho, foi colocada no topo da lista. Como os circunstantes se recusavam a identificar os amotinados, ficou registada simplesmente por Maria da Fonte Arcada, depois abreviado para Maria da Fonte.
A revolta alastrava a toda a província, soltando algum dos bandos “ morras “ ao governo e aos Cabrais.
Costa Cabral, que a 20 de Abril de 1846, no auge da revolta, proferiu na Câmara dos Deputados uma intervenção onde, apesar de afirmar que há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, reconhece que a sublevação em curso no Minho é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos!. E Costa Cabral continua, reconhecendo que é um revolta sem chefe, na qual pontifica a mais ínfima classe da sociedade, executada por um bando de duas mil e quatrocentas a três mil pessoas, armadas com foices roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar.
Era pois o povo, iniciado em tumultos de mulherio, que estava em armas, na verdadeira acepção daquelas palavras. Contudo, à boa maneira Portuguesa, rapidamente a revolta popular foi cavalgada pelos movimentos políticos organizados e a ela se associaram todas as forças anti-cartistas e, por uma vez, convergiram numa luta comum todas as forças mais radicais do espectro político, incluindo a extrema-direita miguelista. Pretendiam o derrube dos Cabrais e mesmo o da Rainha ( D. Maria II ), mas muitos, ainda que sem o afirmarem com clareza, pretendiam também o fim do regime liberal, transformando-se na Guerra Civil da « Patuleia », que quer dizer pé descalço.
Esta rebelião, iniciada, primeiro em Fonte Arcada, concelho da Póvoa de Lanhoso, em Março de 1846, e depois propagada a outros pontos, ficou conhecida na História de Portugal como a Revolução da Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, embora não tivesse sido, no sentido etimológico e político do termo, uma verdadeira revolução. Foi antes uma sublevação popular, o primeiro genuíno movimento de massas dos tempos modernos em Portugal.
Este acontecimento, dos mais nobres de toda a nossa História, revela que o poder do povo, mesmo parecendo adormecido, poderá chegar a extremos e ultrapassar os limites do inimaginável. Isto também a propósito do que se está a passar em todo o Norte de África e Países Árabes. A coragem daquela gente não é nos tempos de hoje digna de desprezo e antes sim de forte apoio e solidariedade entre todos aqueles que não se deixam subjugar a interesses instalados e aparentemente irreversíveis. Tudo é reversível na evolução dos povos, dependendo da consciência social e cívica dos mesmos. A inércia, a indiferença, o assobiar para o lado, o criticar apenas para o vizinho do lado ou para o colega do emprego, o ir votar apenas , não nos levarão a lado nenhum. Está na hora da consciência cívica do País acordar e reivindicar, não dinheiro e subsídios, mas novas políticas com acção e objectivos claros, e não apenas de pseudo resultados a curto prazo. É preciso acção!!
Para isto, poderá ter que se estripar algumas Repartições de Finanças, atear fogo a alguns carros do Governo, atirar uns ovos e tomates e pacotes de leite nacional à Assembleia da República, dar poder Executivo ao Tribunal de Contas, criar suínos nos Governos Civis, colocar esses paus mandados dos partidos em regra medíocres e incompetentes a andar de bicicleta e a correr na rua em cuecas, subirem todos para os telhados em algumas Escolas e Centros de Saúde, pintarem as Universidades de roxo, bem como duma maneira geral a hostilizar as estruturas do Estado, bem como pôr os maus patrões e empregados a trabalhar. Não é preciso ETA para fazer os governantes entender que os votos que os mantêm lá, não são suficientes para eles próprios se apropriarem de tudo o que é nosso e de fazerem o que lhes dá jeito nessa altura, mas que precisam de estar atentos aos que os rodeiam. Isso de serem penalizados nas urnas passados 4 anos não chega, pois em quatro anos podem fazer asneira que chegue para 40 anos de sacrifícios e estagnação, e não serão eles a pagar a factura!
Assim, termino como no Hino:

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

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