Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

METAMORFOSE

Há uma frase de George Sand ( escritora femininista Francesa do Sec XIX ) que está de acordo com algo que me aconteceu este mês, e que possivelmente só algumas pessoas durante uma vida podem experimentar. Já vou contar. Ela dizia que Deus pôs o prazer tão perto da dor que muitas vezes chora-se de alegria. Foi precisamente este sentimento que me invadiu no passado Sábado. Nada de surpreendente mas que marca uma vida, neste caso algumas vidas.
Quando tinha 9 anos, eu vivia em Viseu juntamente com os meus pais. Meu pai já falecido era Eng. Civil e nessa altura Viseu era realmente uma província, onde os quadros fugiam como diabo a cruz, e assim nos Serviços de Urbanização ( hoje onde se encontra o Governo Civil ) , estava concentrada toda a logística de assistência Distrital no que respeita o obras de saneamento e abastecimento de água, em representação da Administração Central, pois as autarquias praticamente não tinham autonomia financeira. Assim se algum Município precisava de alguma obra mais de vulto, teria que se candidatar até à aprovação da obra, que só depois seria realizada. Havia nos Serviços de Urbanização apenas meia dúzia de Engenheiros para todo o Distrito, hoje quase todos com nome em ruas espalhados pela cidade. Como é de imaginar não faltava trabalho àquela gente, e ainda me recordo do meu pai ir para Resende, S João da Pesqueira, Moimenta da Beira etc, pois era dos mais novos, tal como hoje acontece, que se esperava mais força para trabalhar.
Isto a propósito que dada a escassez de tempo para um bom acompanhamento de todos os filhos, o meu pai resolveu que para minha esmerada educação, talvez o Colégio da Caldinhas – St Tirso ( perto da minha terra no Porto ), seria possivelmente o local mais indicado para essa finalidade. E se assim o pensou, assim o fez. Claro que o dito Colégio não era para todos, pois além de se ter que pagar as respectivas propinas nada baratas, tinha-se que obedecer a determinados requisitos sociais e religiosos. Daí que uma palavrinha ao então Bispo de Viseu não se fez esperar, e num ápice me tornei minhoto e de malas aviadas com o número 39. Como eu, vários “mobilizados” de todo o País, que por uma ou milhentas razões, nos encontramos no mesmo sítio com a nobilíssima tarefa de nos tornarmos alguém com a ajuda dos Jesuítas, que desde o Sec XVI tinham o “ Know-How” perfeito para esse objectivo. Decorria o ano de 1967.
Assim, a rapaziada miúda tinha que se desenrascar fora da mamã e do papá, com a bênção dos Jesuítas, em plena criancice. Não importa relatar pormenores, mas apenas salientar que todos acordávamos à mesma hora, comíamos à mesma hora, estudávamos e tínhamos aulas à mesma hora, recreio à mesma hora e outras actividades, praticamente durante 5 ou 7 anos, até termos “alta” de tão digníssima missão. Como o leitor deve imaginar, isto criou entre nós laços de amizade intensa, o que não quer dizer que as canelas, os livros e os travesseiros não dançassem em ocasiões cuja intensidade fosse propícia a uma descompressão. Seja como for, quando após 5 anos de labuta chegaram ao fim, foi ver o pessoal sair como abelhas em enxame espantado, ou seja, alguns nem tempo para se despedir tiveram, e como Facebook, Twetter e emails eram apenas profecias, a maior parte de nós perderam totalmente o contacto. E assim, todos aqueles momentos ficaram guardados na memória, e apenas isso, como uma recordação longínqua, um sonho ou até uma alucinação.
Outro dia o Pintor José Emídio, com a sua astuta visão e sensibilidade persistentes, descobriu-me no Facebook e muito a medo perguntou-me se eu era efectivamente o tal David, o 39 que sempre conviveu com ele e com os outros nos fatídicos anos 60. Claro que a partir daqui foi mais fácil reunir também os gémios Garcia ( os famosos alentejanos de Moura), o Veiga de Macedo de Vila da Feira, o Guterres e o Paulo da Covilhã, o César Barros de Matosinhos e o Abrunhosa do Porto. Marcamos um almoço em Lisboa e assim fomos a um encontro, quase 40 anos depois de nos termos visto pela última vez.
Alguns são avós, outros já foram operados mais do que uma vez, outros estão ainda em boa forma, mas todos fomos outra vez crianças. Nessa tarde rimos e brincamos novamente como no passado, com menos cabelo, com bigode ou a mancar. A borboleta foi novamente crisálida. Metamorfose da vida. Viemos também a saber que outros, infelizmente, já não faziam parte dela.
Como dizia Álvaro de Campos, é Outono no Outono, e o Inverno vem depois fatalmente; e há só um caminho para a vida, que é a vida….

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