Pinturas de Armanda Passos, minha pintora preferida.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DE PROFUNDIS AMAMUS

Ontem às onze fumaste um cigarro
Encontrei-te sentado
Ficámos para perder todos os teus eléctricos
Os meus estavam perdidos por natureza própria.

Andámos dez quilómetros a pé
Ninguém nos viu passar
Excepto claro os porteiros
É da natureza das coisas
Ser-se visto pelos porteiros.
Olha
Como só tu sabes olhar
A rua, os costumes
O público
O vinco das tuas calças
Está cheio de frio
E há quatro mil pessoas interessadas
Nisso.

Não faz mal abracem-me
Os teus olhos
De extremo a extremo azuis
Vai ser assim durante muito tempo
Decorrerão muitos séculos antes de nós
Mas não te importes
Muito
Nós só temos a ver
Com o presente
Perfeito
Corsários de olhos de gato intransponível
Maravilhados, maravilhosos, únicos.
Nem pretérito nem futuro tem
O estranho verbo nosso.

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